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| The Heartbreak Kid (1972), Elaine May |
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
domingo, 26 de novembro de 2017
Sorcerer
Quanto mais William Friedkin vejo, mais me convenço da redutibilidade que há no epíteto de "o realizador d'O Exorcista".
Dito isto, e acabado de sair do abanão austero existencialista de William Friedkin, Sorcerer, é de louvar a perfeita domação de tempo e espaço da cena em que o camião do título atravessa uma ponte de madeira, onde o físico dos homens se contrapõe à violência natural (quem nunca sentiu a chuva ao ver um filme, tem aqui uma boa oportunidade para descobri-la), num misto arrepiantemente realista de som e fúria. É ver cada posição de câmara restringindo a acção ao seu ponto mais cru, sem deixar de encontrar uma fotogenia própria e vivamente agressiva com a paisagem que a circunda. Ou ainda, a incerteza conclusiva que predomina em cada plano, devidamente mesurada numa montagem precisa, salientada pelas densas camadas do som dos motores em heterogeneidade com a tempestade punitiva que se abate sobre eles.
E que dizer do filme? Prova de que um remake pode ser, no mínimo, tão bom quanto o original (O Salário do Medo), por simplesmente manter alguns pontos narrativos em comum, mas usando-os perversamente para abarcar uma visão mais cínica do mundo, com o espírito de camaradagem abafado e onde nem a redenção é suficiente para impedir a entrada dos erros passados pela porta do salão onde se faz a última dança.
Chef d'oeuvre!, apetece gritar. E talvez a melhor coisa a sair do fatalismo da Nova Hollywood que envolva uma filosofia ontologicamente discreta personificada por veículos, juntamente com o sublime The Driver.
Dito isto, e acabado de sair do abanão austero existencialista de William Friedkin, Sorcerer, é de louvar a perfeita domação de tempo e espaço da cena em que o camião do título atravessa uma ponte de madeira, onde o físico dos homens se contrapõe à violência natural (quem nunca sentiu a chuva ao ver um filme, tem aqui uma boa oportunidade para descobri-la), num misto arrepiantemente realista de som e fúria. É ver cada posição de câmara restringindo a acção ao seu ponto mais cru, sem deixar de encontrar uma fotogenia própria e vivamente agressiva com a paisagem que a circunda. Ou ainda, a incerteza conclusiva que predomina em cada plano, devidamente mesurada numa montagem precisa, salientada pelas densas camadas do som dos motores em heterogeneidade com a tempestade punitiva que se abate sobre eles.
E que dizer do filme? Prova de que um remake pode ser, no mínimo, tão bom quanto o original (O Salário do Medo), por simplesmente manter alguns pontos narrativos em comum, mas usando-os perversamente para abarcar uma visão mais cínica do mundo, com o espírito de camaradagem abafado e onde nem a redenção é suficiente para impedir a entrada dos erros passados pela porta do salão onde se faz a última dança.
Chef d'oeuvre!, apetece gritar. E talvez a melhor coisa a sair do fatalismo da Nova Hollywood que envolva uma filosofia ontologicamente discreta personificada por veículos, juntamente com o sublime The Driver.
domingo, 29 de outubro de 2017
O Horizonte de John Ford
"Entrei no escritório dele e vi-o de botas calçadas, em cima da secretária. Perguntou-me o que queria dali. Respondi-lhe que queria ser cineasta.
Ele olhou para mim, de cima para baixo. Depois, apontou para o primeiro de uma série de quadros que tinha numa parede.
-Vai para ali - disse-me.
Eu fui e vi um retrato de um índio num cavalo.
-Onde está o horizonte? - perguntou-me.
Eu apenas respondi:
-Em baixo.
-Boa, agora vai para o próximo. Onde está o horizonte agora?
-Em cima - respondi-lhe.
-Muito bem - disse ele - se alguma vez aprenderes a apreciar a arte de um horizonte em cima ou em baixo, ao invés de directamente no meio, então talvez possas vir a ser um bom cineasta. Agora, sai-me daqui."
Decorria o ano de '61. O nome do rapaz era Steven Spielberg.
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| The Grapes of Wrath (1940) |
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My Darling Clementine (1946)
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| She Wore a Yellow Ribbon (1949) |
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Wagon Master (1950)
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sábado, 14 de outubro de 2017
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
Sputum, miraculum
Das várias histórias dos bastidores do cinema, uma das menos conhecidas é a da primeira exibição do Couraçado Potemkine, no Teatro Bolshoi, em 1925.
Estava Eisenstein na sala de montagem com o período definido de 3 semanas para a edição do filme prestes a findar, quando, inesperadamente, se lhe termina a cola com que trabalhava o final da película. Com medo de misturar os fragmentos soltos que o compunham e na esperança de que se tratasse de uma situação temporária eis que, num gesto açodado, cola estes pedaços com o seu revolucionário cuspe.
Mas os dias passam, o nosso guedelhudo de eleição entrega assim mesmo o seu trabalho e não mais se lembra do seu erro até àquela noite fria de Dezembro no dito teatro. Quase a entrar em pânico, diz para si enquanto percorre, nervosamente, os corredores do edifício: "Pedaços de filme virão a voar do projector! O final será sufocado, assassinado!" Como reagiria a audiência a este violento desfecho?
Eis então que chega a derradeira bobine e... "um milagre! O cuspo aguenta! O filme corre até ao fim! Quando voltámos à sala de montagem não acreditámos nos nossos olhos - nas nossas mãos os fragmentos separavam-se sem o menor esforço e, no entanto, tinham sido unidos por uma força mágica à medida que corriam, como um todo, pelo projector."
Um filme colado a cuspo que se aguenta até ao fim? Ora, eis uma boa definição de "milagre".
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
"Fais que ton rêve soit plus long que la nuit."
(Título de um álbum de Vangelis em torno do Maio de '68 e, provavelmente, a frase mais bonita que se possa dizer a quem ambicione começar qualquer coisa como uma revolução.)
terça-feira, 10 de outubro de 2017
Últimos hurrahs
A última aparição pública de John Wayne foi quando entregou o Óscar de melhor filme em 1979 a O Caçador (exactamente 2 meses e 2 dias antes da sua morte). À procura desse momento, encontro a versão completa dos últimos 10 minutos da cerimónia, onde um Wayne elegantíssimo desce as escadas com uma alegria de quem sabe que a cidade precisa do seu xerife confiante a cada manhã para estar em completo sossego. E é absolutamente avassaladora, sem deixar de ser comovente, a forma como mantém essa postura mesmo no seu discurso proferido com um pulmão e 4 costelas a menos: "Vou estar cá por muito mais tempo." As suas derradeiras palavras para uma câmara, um good night enrouquecido e abafado pelo som dos aplausos, à medida que sai do enquadramento com as palmas das mãos para baixo e polegares enfiados no colete formal. Um cowboy durão até ao fim. Acredito que o Ford havia de estar a ver isto com o charuto no canto do lábio e a pensar "meu sacana, não sabia que eras capaz de apresentar", lá na sua colina do Monument Valley onde vive e tudo vê.
Mas dizia, encontrei a versão completa e qual não é o meu espanto quando, uns minutos antes deste momento, me deparo com o Coppola pré-bezanas prestes a entregar o prémio de realização e a dizer com uma confiança que hoje é impossível escutar sem abanar a cabeça, em tom condescendente: "Vejo uma revolução! Acredito que nos anos 80 os filmes produzidos estarão para além dos nossos sonhos!" Ah, a ironia...
Dito isto, esqueci-me se o propósito deste post era falar do Wayne ou da Nova Hollywood, mas admiro que em 10 minutos tanto o Duque como o Padrinho tenham feito o melhor que as suas artes permitiam: criar a ilusão de que o que se estava a assistir era o sinal de algo grandioso e que só viria a melhorar com os anos. Mentiras necessárias para fazer acreditar que, tanto na vida como no cinema, vale sempre a pena ficar à espera. Sinais de esperança, vindos em últimos hurrahs. Ainda hoje precisamos deles.
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