terça-feira, 2 de junho de 2026

Danças com Lobo (Antunes)

Nutria mais admiração pelo Lobo Antunes-cronista do que pelo Lobo Antunes-romancista, fruto da excruciante experiência que foi a leitura d'As Naus em viagens de comboio e de autocarro a caminho da fábrica onde iniciei o meu percurso profissional em tempos pré-pandémicos. Claro que o erro foi meu ao acreditar que a exigência de um romance modernista seria compatível com meios de transporte preenchidos pela sonolência das manhãs e pelo cansaço dos fins de tarde que constituem uma semana de trabalho. A prosa de Lobo Antunes, impressionista, polifónica, não-linear e determinada em explorar as infinitas potencialidades da metáfora, torna-se indubitavelmente desafiante para quem nela pretende peneirar uma simples narrativa. Daí que o formato da crónica me parecesse mais digerível e apreciável: curto, acessível, focado, sem em nada emascular os dotes estílicos do autor.

Após a sua morte em Março deste ano, procurei reconciliar-me com o romancista via o Memória de Elefante. Inicialmente, todo o cansaço intelectual e esforço interpretativo que sentia n'As Naus esteve presente nas primeiras páginas, forçando-me a fazer sucessivas interrupções e incontáveis releituras dos gargantuescos comboios de palavras que alinhadamente se sucediam. 

O melhor exemplo está nesta frase (note-se: não é um parágrafo, é "apenas" uma frase que ocupa 10 linhas) em baixo, onde a colocação de uma dentadura por uma enfermeira caduca, num hospital psiquiátrico, leva à invocação do filme Dr. Mabuse, do imperador Napoleão e dos odores e ruídos que perpassam pela Feira Popular.

Foi uma frase que, por tê-la inicialmente lido num ritmo lento, forcei-me a relê-la 3 vezes até julgá-la ter compreendido plenamente. E reli-a 3 vezes porque, ao chegar à parte referente aos "estudantes de liceu", esquecia-me a que se referia a "edificação cultural", o que era a "majestade de Napoleão" e até mesmo quem estava no "gabinete" do referido doutor. Uma espécie de viagem sinuosa e atribulada, onde a cada novo passo dado me esquecia do trilho que já havia palmilhado. Mas foi então que a experimentei ler uma nova vez, desta feita em ritmo acelerado, aceitando as imagens invocadas com a velocidade de cada palavra percorrida. Por mais paradoxal que possa parecer, a rapidez tornou-me o texto não só mais inteligível, como também mais prazeroso. A partir daí, li as seguintes do mesmo modo, respirando fundo antes de cada novo bombardeamento criativo de metáforas e referências recebido de uma assentada. E, por fim, posso afirmar que não é só pelo Lobo Antunes-cronista que sinto admiração.

Como encarar, então, a prosa dos seus romances? Como um combate de pugilismo amigável e desafiante (obrigado pela sugestão, C.); como uma dança de passo rápido onde o ritmo sintáctico define a coreografia interpretativa estimulada no nosso intelecto; como, enfim, um mergulho onde se necessita de inspirar profundamente antes de se lidar com um embate de certa violência, mas de onde o leitor, se bem-sucedido, sairá com a sensação purificante apenas reservada aos grandes corpos de água e à fruição estética de uma obra conseguida.

Digo que li As Naus, mas não li. Pois, quando uma pessoa desiste de compreender um texto para apenas se resignar a passar os olhos pelas palavras que o compõem, não extraindo dele qualquer prazer ou sentido, então não está a ler, mas apenas a fingir a leitura. Eventualmente, hei-de revisitar As Naus. Por ora, é tempo de mergulhar, dançar e combater com a prosa de Os Cus de Judas.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Para que serve a crítica?"

Pergunta que surge num livro que tenho por estes dias em mãos, o Humilhados e Ofendidos do grande psicólogo da alma humana, Dostoievski de seu nome. No caso, uma personagem que a solta de forma retórica a propósito do papel da crítica literária ao protagonista, um jovem escritor que acaba de publicar o seu primeiro romance. Já me havia deparado com ela, não poucas vezes, sobre a crítica cinematográfica, à qual tentei dar a minha tentativa de resposta em tempos idos. O que prova que, seja sobre a literatura no século XIX ou o cinema no século XXI, a pergunta permanece e estará para durar por gerações, artes e séculos. Já fui presenteado com várias elucidações. Mas talvez nenhuma melhor do que a solta pela pena do saudoso William Friedkin na sua autobiografia, The Friedkin Connection. Deixo, em baixo, esse momento, o qual editei ligeiramente por uma questão de concisão.

«Em 1957, o dramaturgo Harold Pinter estreou a sua peça The Birthday Party. A audiência e alguns críticos consideraram-na obscura, absurda e sem valor. O Pinter tinha apenas 28 anos, esta era a sua segunda peça e tinha sido um fiasco, estando sem dinheiro e a viver numa cave com um bebé. A peça fechou ao fim de oito dias, e só seis pessoas foram vê-la na sua última exibição. Isto deveria marcar o fim da carreira do Pinter. Mas eis que o milagre aconteceu. Uma dessas pessoas era o crítico de teatro Harold Hobson, que escreveu, depois da peça ter encerrado: “Estou disposto a arriscar a minha reputação enquanto crítico ao dizer que o sr. Pinter possui o talento mais original, perturbador e impressionante na Londres teatral. Ele tem presente um facto primário da existência: vivemos à beira do desastre.” E o resultado é que esta crítica resgatou a peça de Pinter e a sua reputação.»

Uma crítica foi o primeiro acontecimento crucial para a aclamação, reconhecimento e glória de um homem simples que gostava de escrever peças. E, por isso, respondendo à questão do título, aquilo que parece ser uma actividade pedante, esquecível e sem utilidade pode fazer, na vida de alguns, toda a diferença entre a miséria numa cave e um Nobel anos depois.

domingo, 10 de maio de 2026

A ignorância dá boa publicidade

"[A] maior controvérsia de Hollywood", diz-me esta newsletter da NOS sobre o caso da Blake Lively contra o Justin Baldoni. Que tão notória hipérbole é uma desesperada estratégia de marketing? Não digo que não. Mas o que me impressiona é a (real ou simulada) falta de memória histórica e cinematográfica, para fins promocionais, junto de uma audiência desinformada e já tão pouco afecta ao passado. Hollywood tem uma dose de escândalos e sordidez associada cuja provecta idade já atinge um valente século (alguma da qual relatada no livro de Kenneth Anger, Hollywood Babylon) e ao pé da qual o caso Lively vs Baldoni empalidece sem hesitação. 

Saberão os autores da newsletter quem foi o Fatty Arbuckle e da festa alcoólica, na época da Lei Seca, que ditou o fim da sua carreira pelo trágico desfecho que nela aconteceu? Não viram o Cat's Meow do Bogdanovich, sobre a misteriosa morte, ocorrida num luxuoso iate nos anos 20, que envolveu celebridades de nomes tão sonantes como o Chaplin ou o Randolph Hearst? Terão ouvido falar, sequer, no Roman Polanski e do crime que lhe não permite regressar aos EUA desde há 50 anos? E como é possível já se terem esquecido do Harvey Weinstein e do MeToo quando nem 10 anos ainda passaram e tanta tinta fez correr?

Calculo que pouco ou nada disto lhes diga algo. E, se disser, então serão os primeiros a reconhecer quão desonesta é essa frase tão taxativa.

E assim continua...

 "Assim, desaparecia da história do PCP toda a gente que tivesse divergências. Eram apagados da história, independentemente da sua importância em determinada fase da vida do PCP. Era assim e assim continuou a ser." 

Zita Seabra, "Foi Assim" 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Da empatia

Torna-se difícil discutir temas que envolvam minorias sem ouvir, do outro lado, a razoável questão (colocada, usualmente, em menos razoável tom): "Então e a empatia?!" Mas empatizar não basta para dar o assunto por terminado, sendo necessário abordar, com honestidade e pragmatismo, a situação abordada na sua real complexidade em termos de consequências e de como estas se podem fazer sentir.

Exemplos? 

Podemos falar de empatia pelos toxicodepentes e acharmos positivo a abertura de uma sala de consumo assistido. Mas também temos de empatizar pelos moradores daquele bairro, na insegurança que irão experienciar com a possibilidade da existência de tráfico e consumo a céu aberto, assim como de seringas perigosamente deixadas ao relento, se a dita sala demonstrar ter uma capacidade de resposta insuficiente.

Podemos falar de empatia pelos imigrantes e defender uma legislação mais permissível e humanista quanto ao controlo de fronteiras. Mas também temos de empatizar pelos moradores das zonas mais atingidas por esta imigração e tentar minimizar eventuais tensões sociais que venham na sua subsequência.

Podemos falar de empatia pelas pessoas trans e intersexo, deixando-as participar nas categorias desportivas do género no qual se identificam. Mas também temos de empatizar pelas mulheres que abnegaram de uma vida académica, social e profissional regular para se dedicarem a um desporto cujo momento de glória lhes poderá ser negado ao competirem com atletas portadores de características físicas, anatómicas e hormonais mais vantajosas.

A empatia pelas minorias é importante? Claro que sim. Mas não menos importante é a empatia pelas maiorias directamente afectadas por elas. Ignorar uns em prol de outros leva à sensação amargosa de que o cidadão comum foi relegado pelas instituições que o deveriam proteger e servir. Também isso explica o ressentimento social. E a falta de empatia.

domingo, 19 de abril de 2026

"O Padrinho" e o departamento dos Recursos Humanos

Salvo erro, era o crítico Serge Daney que dizia "Não és só tu que vês os filmes a envelhecer; eles também te vêem a envelheceres". Sempre a interpretei como uma variação cinéfila do aforismo heraclitiano, "Não te podes banhar no mesmo rio duas vezes". Que é como quem diz, tal como o indivíduo e as águas dos rios mudam, também o nosso olhar sobre os filmes que vimos vai-se transformando, moldado pelas nossas experiências individuais e a forma como estas afectam a nossa mundividência em diferentes fases da vida.

Dito isto, revi, pela primeira vez em muitos anos (dez? quinze?), a trilogia completa O Padrinho. Não será original delinear paralelismos entre a intriga destes filmes e o capitalismo. Pois, ao fim e ao cabo, o que é Vito Corleone a não ser um CEO veterano e venerado de uma grande empresa, portadora de um portfólio negocial bastante diversificado (o jogo, o álcool, a prostituição), cuja posição de mercado se vê ameaçada com o surgimento de um novo produto que não domina (a droga)? E, como qualquer CEO envelhecido, também Corleone é percorrido por uma fatal questão atormentante: "Com a minha saída, quais as melhores mãos onde posso deixar esta empresa?"

Mas o que achei mais curioso, no entanto, é a forma como o filho, Michael Corleone, à medida que assegura o futuro da Máfia assumindo o lugar do pai, vai tendo as suas relações pessoais afectadas, nomeadamente pelo gradual afastamento da mulher, Kay, a qual vai deixando de reconhecer o marido quanto mais este mergulha no negrume moral inerente aos gestos decisórios capazes de consolidarem o seu poder. Michael é um homem de negócios. A prioridade são os negócios. E é a forma excessivamente dedicada e eticamente pouco limitada como se vai dedicando a eles que aliena os que mais bem lhe querem.

E é aqui que, fruto de demasiadas conversas de escritório e publicações de terceiros no Linkedin, humildemente dou os meus dois tostões para futuras análises da trilogia. Para além de um tratado cinematográfico sobre a família, o poder e o crime, porque não falar d'O Padrinho como uma obra em torno dos riscos da falta de um equilibrado work-life balance?