segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Para que serve a crítica?"

Pergunta que surge num livro que tenho por estes dias em mãos, o Humilhados e Ofendidos do grande psicólogo da alma humana, Dostoievski de seu nome. No caso, uma personagem que a solta de forma retórica a propósito do papel da crítica literária ao protagonista, um jovem escritor que acaba de terminar o seu primeiro romance. Já me havia deparado com ela, não poucas vezes, sobre a crítica cinematográfica, à qual tentei dar a minha tentativa de resposta em tempos idos. O que prova que, seja sobre a literatura no século XIX ou o cinema no século XXI, a pergunta permanece e estará para durar por gerações, artes e séculos. Já fui presenteado com várias elucidações. Mas talvez nenhuma melhor do que a solta pela pena do saudoso William Friedkin na sua autobiografia, The Friedkin Connection. Deixo, em baixo, esse momento, o qual editei ligeiramente por uma questão de concisão.

«Em 1957, o dramaturgo Harold Pinter estreou a sua peça The Birthday Party. A audiência e alguns críticos consideraram-na obscura, absurda e sem valor. O Pinter tinha apenas 28 anos, esta era a sua segunda peça e tinha sido um fiasco, estando sem dinheiro e a viver numa cave com um bebé. A peça fechou ao fim de oito dias, e só seis pessoas foram vê-la na sua última exibição. Isto deveria marcar o fim da carreira do Pinter. Mas eis que o milagre aconteceu. Uma dessas pessoas era o crítico de teatro Harold Hobson, que escreveu, depois da peça ter encerrado: “Estou disposto a arriscar a minha reputação enquanto crítico ao dizer que o sr. Pinter possui o talento mais original, perturbador e impressionante na Londres teatral. Ele tem presente um facto primário da existência: vivemos à beira do desastre.” E o resultado é que esta crítica resgatou a peça de Pinter e a sua reputação.»

Uma crítica foi o primeiro acontecimento crucial para a aclamação, reconhecimento e glória de um homem simples que gostava de escrever peças. E, por isso, respondendo à questão do título, aquilo que parece ser uma actividade pedante, esquecível e sem utilidade pode fazer, na vida de alguns, toda a diferença entre a miséria numa cave e um Nobel anos depois.

domingo, 10 de maio de 2026

A ignorância dá boa publicidade

"[A] maior controvérsia de Hollywood", diz-me esta newsletter da NOS sobre o caso da Blake Lively contra o Justin Baldoni. Que tão notória hipérbole é uma desesperada estratégia de marketing? Não digo que não. Mas o que me impressiona é a (real ou simulada) falta de memória histórica e cinematográfica, para fins promocionais, junto de uma audiência desinformada e já tão pouco afecta ao passado. Hollywood tem uma dose de escândalos e sordidez associada cuja provecta idade já atinge um valente século (alguma da qual relatada no livro de Kenneth Anger, Hollywood Babylon) e ao pé da qual o caso Lively vs Baldoni empalidece sem hesitação. 

Saberão os autores da newsletter quem foi o Fatty Arbuckle e da festa alcoólica, na época da Lei Seca, que ditou o fim da sua carreira pelo trágico desfecho que nela aconteceu? Não viram o Cat's Meow do Bogdanovich, sobre a misteriosa morte, ocorrida num luxuoso iate nos anos 20, que envolveu celebridades de nomes tão sonantes como o Chaplin ou o Randolph Hearst? Terão ouvido falar, sequer, no Roman Polanski e do crime que lhe não permite regressar aos EUA desde há 50 anos? E como é possível já se terem esquecido do Harvey Weinstein e do MeToo quando nem 10 anos ainda passaram e tanta tinta fez correr?

Calculo que pouco ou nada disto lhes diga algo. E, se disser, então serão os primeiros a reconhecer quão desonesta é essa frase tão taxativa.

E assim continua...

 "Assim, desaparecia da história do PCP toda a gente que tivesse divergências. Eram apagados da história, independentemente da sua importância em determinada fase da vida do PCP. Era assim e assim continuou a ser." 

Zita Seabra, "Foi Assim" 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Da empatia

Torna-se difícil discutir temas que envolvam minorias sem ouvir, do outro lado, a razoável questão (colocada, usualmente, em menos razoável tom): "Então e a empatia?!" Mas empatizar não basta para dar o assunto por terminado, sendo necessário abordar, com honestidade e pragmatismo, a situação abordada na sua real complexidade em termos de consequências e de como estas se podem fazer sentir.

Exemplos? 

Podemos falar de empatia pelos toxicodepentes e acharmos positivo a abertura de uma sala de consumo assistido. Mas também temos de empatizar pelos moradores daquele bairro, na insegurança que irão experienciar com a possibilidade da existência de tráfico e consumo a céu aberto, assim como de seringas perigosamente deixadas ao relento, se a dita sala demonstrar ter uma capacidade de resposta insuficiente.

Podemos falar de empatia pelos imigrantes e defender uma legislação mais permissível e humanista quanto ao controlo de fronteiras. Mas também temos de empatizar pelos moradores das zonas mais atingidas por esta imigração e tentar minimizar eventuais tensões sociais que venham na sua subsequência.

Podemos falar de empatia pelas pessoas trans e intersexo, deixando-as participar nas categorias desportivas do género no qual se identificam. Mas também temos de empatizar pelas mulheres que abnegaram de uma vida académica, social e profissional regular para se dedicarem a um desporto cujo momento de glória lhes poderá ser negado ao competirem com atletas portadores de características físicas, anatómicas e hormonais mais vantajosas.

A empatia pelas minorias é importante? Claro que sim. Mas não menos importante é a empatia pelas maiorias directamente afectadas por elas. Ignorar uns em prol de outros leva à sensação amargosa de que o cidadão comum foi relegado pelas instituições que o deveriam proteger e servir. Também isso explica o ressentimento social. E a falta de empatia.

domingo, 19 de abril de 2026

"O Padrinho" e o departamento dos Recursos Humanos

Salvo erro, era o crítico Serge Daney que dizia "Não és só tu que vês os filmes a envelhecer; eles também te vêem a envelheceres". Sempre a interpretei como uma variação cinéfila do aforismo heraclitiano, "Não te podes banhar no mesmo rio duas vezes". Que é como quem diz, tal como o indivíduo e as águas dos rios mudam, também o nosso olhar sobre os filmes que vimos vai-se transformando, moldado pelas nossas experiências individuais e a forma como estas afectam a nossa mundividência em diferentes fases da vida.

Dito isto, revi, pela primeira vez em muitos anos (dez? quinze?), a trilogia completa O Padrinho. Não será original delinear paralelismos entre a intriga destes filmes e o capitalismo. Pois, ao fim e ao cabo, o que é Vito Corleone a não ser um CEO veterano e venerado de uma grande empresa, portadora de um portfólio negocial bastante diversificado (o jogo, o álcool, a prostituição), cuja posição de mercado se vê ameaçada com o surgimento de um novo produto que não domina (a droga)? E, como qualquer CEO envelhecido, também Corleone é percorrido por uma fatal questão atormentante: "Com a minha saída, quais as melhores mãos onde posso deixar esta empresa?"

Mas o que achei mais curioso, no entanto, é a forma como o filho, Michael Corleone, à medida que assegura o futuro da Máfia assumindo o lugar do pai, vai tendo as suas relações pessoais afectadas, nomeadamente pelo gradual afastamento da mulher, Kay, a qual vai deixando de reconhecer o marido quanto mais este mergulha no negrume moral inerente aos gestos decisórios capazes de consolidarem o seu poder. Michael é um homem de negócios. A prioridade são os negócios. E é a forma excessivamente dedicada e eticamente pouco limitada como se vai dedicando a eles que aliena os que mais bem lhe querem.

E é aqui que, fruto de demasiadas conversas de escritório e publicações de terceiros no Linkedin, humildemente dou os meus dois tostões para futuras análises da trilogia. Para além de um tratado cinematográfico sobre a família, o poder e o crime, porque não falar d'O Padrinho como uma obra em torno dos riscos da falta de um equilibrado work-life balance?

segunda-feira, 13 de abril de 2026

A arte, o artista e o artolas

Não vejo qualquer problema em apreciar a arte de um artista "problemático" (entenda-se, um génio no seu ofício com uma conduta pessoal condenável). Chaplin, um dos maiores cineastas da História, engravidou uma adolescente de 16 anos e teve de se casar com ela no México para evitar um (ainda maior) escândalo. Caravaggio, zénite da pintura barroca, assassinou um homem numa rixa fútil. E o nosso Saramago fez saneamentos políticos, nos quadros do DN, na altura do PREC. Mas não trocaria os filmes do primeiro, os quadros do segundo ou os romances do terceiro por qualquer bom samaritano cujo trabalho me deixa profundamente enfadado ou indiferente. De facto, até me consola. Se, após terminar a minha experiência com uma obra superlativa destes ou doutros "monstros", for atravessado pelo desmotivante pensamento, "Nunca serei capaz de fazer algo tão belo", poderei, após uma clarificante pausa, complementá-lo com um apaziguador, "Mas também nunca serei capaz de cometer algo tão feio". Ou, pelo menos, assim o espero.

E viva a Hungria

Barbara Palvin para a Victoria's Secret