Nutria mais admiração pelo Lobo Antunes-cronista do que pelo Lobo Antunes-romancista, fruto da excruciante experiência que foi a leitura d'As Naus em viagens de comboio e de autocarro a caminho da fábrica onde iniciei o meu percurso profissional em tempos pré-pandémicos. Claro que o erro foi meu ao acreditar que a exigência de um romance modernista seria compatível com meios de transporte preenchidos pela sonolência das manhãs e pelo cansaço dos fins de tarde que constituem uma semana de trabalho. A prosa de Lobo Antunes, impressionista, polifónica, não-linear e determinada em explorar as infinitas potencialidades da metáfora, torna-se indubitavelmente desafiante para quem nela pretende peneirar uma simples narrativa. Daí que o formato da crónica me parecesse mais digerível e apreciável: curto, acessível, focado, sem em nada emascular os dotes estílicos do autor.
Após a sua morte em Março deste ano, procurei reconciliar-me com o romancista via o Memória de Elefante. Inicialmente, todo o cansaço intelectual e esforço interpretativo que sentia n'As Naus esteve presente nas primeiras páginas, forçando-me a fazer sucessivas interrupções e incontáveis releituras dos gargantuescos comboios de palavras que alinhadamente se sucediam.
O melhor exemplo está nesta frase (note-se: não é um parágrafo, é "apenas" uma frase que ocupa 10 linhas) em baixo, onde a colocação de uma dentadura por uma enfermeira caduca, num hospital psiquiátrico, leva à invocação do filme Dr. Mabuse, do imperador Napoleão e dos odores e ruídos que perpassam pela Feira Popular.
Foi uma frase que, por tê-la inicialmente lido num ritmo lento, forcei-me a relê-la 3 vezes até julgá-la ter compreendido plenamente. E reli-a 3 vezes porque, ao chegar à parte referente aos "estudantes de liceu", esquecia-me a que se referia a "edificação cultural", o que era a "majestade de Napoleão" e até mesmo quem estava no "gabinete" do referido doutor. Uma espécie de viagem sinuosa e atribulada, onde a cada novo passo dado me esquecia do trilho que já havia palmilhado. Mas foi então que a experimentei ler uma nova vez, desta feita em ritmo acelerado, aceitando as imagens invocadas com a velocidade de cada palavra percorrida. Por mais paradoxal que possa parecer, a rapidez tornou-me o texto não só mais inteligível, como também mais prazeroso. A partir daí, li as seguintes do mesmo modo, respirando fundo antes de cada novo bombardeamento criativo de metáforas e referências recebido de uma assentada. E, por fim, posso afirmar que não é só pelo Lobo Antunes-cronista que sinto admiração.
Como encarar, então, a prosa dos seus romances? Como um combate de pugilismo amigável e desafiante (obrigado pela sugestão, C.); como uma dança de passo rápido onde o ritmo sintáctico define a coreografia interpretativa estimulada no nosso intelecto; como, enfim, um mergulho onde se necessita de inspirar profundamente antes de se lidar com um embate de certa violência, mas de onde o leitor, se bem-sucedido, sairá com a sensação purificante apenas reservada aos grandes corpos de água e à fruição estética de uma obra conseguida.
Digo que li As Naus, mas não li. Pois, quando uma pessoa desiste de compreender um texto para apenas se resignar a passar os olhos pelas palavras que o compõem, não extraindo dele qualquer prazer ou sentido, então não está a ler, mas apenas a fingir a leitura. Eventualmente, hei-de revisitar As Naus. Por ora, é tempo de mergulhar, dançar e combater com a prosa de Os Cus de Judas.

