segunda-feira, 13 de abril de 2026

A arte, o artista e o artolas

Não vejo qualquer problema em apreciar a arte de um artista "problemático" (entenda-se, um génio no seu ofício com uma conduta pessoal condenável). Chaplin, um dos maiores cineastas da História, engravidou uma adolescente de 16 anos e teve de se casar com ela no México para evitar um (ainda maior) escândalo. Caravaggio, zénite da pintura barroca, assassinou um homem numa rixa fútil. E o nosso Saramago fez saneamentos políticos, nos quadros do DN, na altura do PREC. Mas não trocaria os filmes do primeiro, os quadros do segundo ou os romances do terceiro por qualquer bom samaritano cujo trabalho me deixa profundamente enfadado ou indiferente. De facto, até me consola. Se, após terminar a minha experiência com uma obra superlativa, for atravessado pelo desmotivante pensamento, "Nunca serei capaz de fazer algo tão belo", poderei, após uma clarificante pausa, complementá-lo com um apaziguador, "Mas também nunca serei capaz de cometer algo tão feio". Ou, pelo menos, assim o espero.

E viva a Hungria

Barbara Palvin para a Victoria's Secret

domingo, 12 de abril de 2026

Quotas

De quando em vez, em conversa com pessoas de esquerda, ouço o argumento de que as instituições norte-americanas estão montadas para excluir negros, hispânicos e outras minorias. Ouço, também, que a única maneira de estas mesmas minorias serem nelas aceites é pela aplicação de quotas. Acho curioso. Não me lembro de a Jennifer Lopez precisar de quotas para se tornar numa das mais celebradas cantoras pop mundiais. Não me lembro de a Whoopi Goldberg precisar de quotas para vencer um óscar. E não me lembro de o Obama precisar de quotas para ser presidente da nação mais poderosa do mundo inteiro. 

Afirmar que, só pela aplicação de quotas, pessoas vistas como pertencentes a estas minorias podem ser reconhecidas é nada menos do que desvalorizar o mérito destas e doutras personalidades que lhes antecederam, substituindo-o por um olhar escusadamente paternalista. O esforço individual e a qualidade do trabalho apresentado não precisam de percentagens burocráticas para se salientarem face aos seus pares. Para além de que os efeitos são perniciosos, acentuando-se (ao invés de se atenuarem) as diferenças ao nível da nacionalidade, ascendência familiar ou pigmentação da pele. Algo que, suponho, seja indesejável numa sociedade verdadeiramente progressista. 

Finalmente, há que perguntar: quem define os grupos que essas quotas devem representar e quais aqueles a ser excluídos? Ou, para essas almas tão virtuosas e iluminadas, não se devem considerar os manetas, os anões, os sopinhas de massa ou as pessoas de afastados incisivos?

sábado, 11 de abril de 2026

JK Rowling

Dizem que a JK Rowling é transfóbica. O primeiro passo passa por definir o que é um transsexual. Dir-me-ão que é alguém que se identifica com o género oposto. Eu digo que é alguém que se sujeitou a uma operação para se converter ao género oposto. Sem essa intervenção, é apenas um homem que tem tanta credibilidade em afirmar-se como mulher como outros a tinham quando proclamavam que eram Napoleão (excluindo, evidentemente, o próprio Napoleão). Aquilo que JK Rowling defende – e é também o que eu defendo – é a prevalência do sexo e cromossomas para a atribuição do género de uma pessoa, não bastando alguém afirmar “Eu identifico-me como…” para o ser efectivamente. O que JK Rowling critica não é, em suma, os transsexuais (ou, pelo menos, a sua concepção de “transsexual”) mas a ideologia de género, a qual veio a ganhar tanta força junto de activistas progressistas nos últimos anos, assim como a implacável subserviência por parte da esquerda contemporânea e de algumas instituições. E, por isso, aos muitos que me dizem “Gosto do Harry Potter, apesar do que a JK Rowling escreve no X”, respondo “Gosto do que a JK Rowling escreve no X, apesar do Harry Potter”.

“What’s in a name?”

De quando em vez, em discussões acaloradas, ouço o argumento “Diz-me um nome de uma pessoa que…” em torno do tema a ser debatido. Já me aconteceu o “Diz-me um nome de uma pessoa que tenha sido condenada à morte pela Inquisição” ou “Diz-me um nome de um homem que tenha feito parte de uma competição desportiva de mulheres”. Apesar de, no entretanto, já saber apontar exemplos para ambos os casos (Giordano Bruno para o primeiro; Imane Khelif para o segundo), passei a responder a esse tonto desafio com um “Diz-me um nome de uma pessoa que tenha sido enviada para o Tarrafal”; “Diz-me um nome de uma pessoa que tenha estado presa num gulag”; “Diz-me um nome de uma pessoa, russa ou ucraniana, que tenha morrido na invasão da Ucrânia”. Não é o conhecimento de indivíduos envolvidos (que, como é evidente, ninguém é obrigado a decorar, sobretudo quando a História é tão rica em acontecimentos) que implica a existência ou inexistência dos factos. Ou, como diria, Shakespeare, “What’s in a name?”

terça-feira, 31 de março de 2026

Um imóvel com "alma", diz a descrição. Realmente, entre pensar na exposição solar, localização geográfica, área útil, €/m2, direcção e outras características, nunca me tinha ocorrido essa componente de um imóvel: a anímica. Será que lhe aumenta o potencial de valorização?