domingo, 12 de julho de 2026

Guarda-redes

Talvez pela minha crónica falta de jeito para jogar à bola, a qual me levou incontáveis vezes a ouvir, em aulas sofríveis de Educação Física, "Duarte, vai para a baliza", tenho o meu panteão futebolístico exclusivamente ocupado pela figura do guardião. É nela, na posição regularmente encarada como a de patinho feio do relvado ("Guarda-redes?! Guarda-redes é para quem não sabe jogar!", diz o Cristiano Ronaldo ao filho num documentário com o seu nome), que a falta de talento com os pés é simultaneamente punida e recompensada com a última linha de defesa do colossal rectângulo do qual depende a vitória ou a derrota de uma equipa. Não é à toa que o título mais belo de um filme de Wim Wenders é, justamente, "A Angústia do Guarda-Redes no Momento do Penalty". Pois, num jogo de futebol, não há maior pressão psicológica nem colocação onde o mais ínfimo erro se revele fatal do que aquela por que passa o homem das luvas de látex que se atira na obstinada procura em parar o esférico com a força das suas palmas. 

Nunca o futebol me proporcionou tanta alegria como no temporalmente longínquo e ainda sentimentalmente próximo Portugal - Inglaterra do Euro 2004, onde a nossa aprovação para as meias-finais foi decidida em dois desafiantes penáltis pelo guardião Ricardo: o primeiro, na imortal defesa sem luvas de um remate de Darius Vassell; o segundo, na marcação do seu golo decisivo que levou Portugal à vitória. Um guarda-redes que escolhe defender sem luvas é o equivalente ao soldado de infantaria que opta por entrar no campo de batalha sem capacete: imprudente, perigoso, tão tremendamente arriscada a tentativa quanto superlativamente admirável se concluída com sucesso. A ansiedade que antecedeu estes dois momentos, assim como a euforia encontrada nos respectivos desfechos, cristalizaram na minha mente a imagem do guarda-redes como a de um atleta menosprezado capaz de ser presentado pela mais memorável glória. E isto numa altura em que os espectadores viam os jogos em canais abertos, estando as televisões do país inteiro sintonizadas ao milissegundo, fazendo um povo sofrer e rejubilar de modo perfeitamente sincronizado (nada de golos com sabor a requentado, como hoje ocorre consoante o canal utilizado e a operadora subscrita).

Ricardo ocupa o topo do meu panteão futebolístico, Mas não está nele só. Acompanho-o com outros, como o soviético Lev Yashin (ainda o único guarda-redes vencedor do Ballon d'Or), o espanhol Iker Casillas (cuja defesa contra um remate da Holanda, na final do Mundial 2010, contribuiu decisivamente para a vitória da selecção espanhola, e onde o prémio mais importante não foi a cobiçada taça da FIFA mas um terno beijo a Sara Carbonero) ou o marroquino Bounou (o percurso de Marrocos no Mundial 2022, muito graças à prestação do seu guardião, foi o mais perto que vi de uma adaptação do Rocky para a vida real).

Por me lembrar disto e por mais, e ainda no rescaldo da derrota da Noruega contra a Inglaterra (que em nada eclipsa o seu extraordinário desempenho contra o Brasil), passa então a constar, neste meu humilde panteão, ele: Ørjan Nyland.

sábado, 11 de julho de 2026

Andava aqui a ver programas de debate político, à procura de algo mais do que mera indignação e do termo "desastre comunicacional" para falar sobre a polémica do Fernando Alexandre e da digitalização falhada dos exames. Chego ao "Programa cujo nome estamos legalmente impedidos de dizer " (aka "Governo Sombra") e ouço o Ricardo Araújo Pereira referir um conto do Eça e de como "reforma" é um anagrama para "é morfar". Para além de ser o nosso maior humorista, é também o mais original comentador político que temos.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

No Observador, Tiago Dores explica, de modo acessível e espirituoso, a diferença entre PIB e PIB per capita. E o porquê de não se dever menosprezar o segundo indicador para conhecermos, verdadeiramente, a riqueza de um país.




61,5% em 5 anos. 12,3% ao ano. Melhor do que muitos ETFs, incluindo o S&P 500. Porquê comprar casa em Portugal? Porque é um investimento de elevado retorno. Um PPR (muito) agressivo onde se pode viver no seu interior.

Fonte: Jornal de Negócios



domingo, 21 de junho de 2026

Pequeno contributo para uma existência mais feliz

Para me salvaguardar de desilusões e de lamentos quanto ao tempo perdido, há muito tempo que adoptei esta postura face a cada nova "melhor série de sempre" que me é, geralmente, recomendada por amigos ou familiares: espero pelo último episódio da última temporada e, se o vibrante entusiasmo dos que inicialmente ma recomendaram se mantiver, então, só aí, considerarei em juntar-me à lista dos seus eventuais espectadores. É por isso que nunca verei "Dexter", "Game of Thrones", "How I Met Your Mother"... e, pelos vistos, "Euphoria" também.

sábado, 20 de junho de 2026

Toy Story

A minha relação com a saga Toy Story tinha sido, na minha juventude, de algum desapego, fruto de traumas infantis deixados pelos brinquedos mutantes do delinquente Sid no 1º filme e do braço de trapos de Woody rasgado, arrancado e cosido no 2º. Quando chegou o 3º, comigo já em plena adolescência, pareceu-me ser um filme com um final bonito, mas onde o que lhe antecedia não era definitivamente capaz de o igualar. 

Foi só com o 4º, já em jovem adulto, que adquiri genuína estima pela saga a partir da premissa de preocupações universais (e, por isso, bela) que o filme propunha: se o sentido que conferimos às nossas existências está em amarmos e fazermos alguém feliz, o que fazemos quando esse alguém nos renega? Pois no medo existencial de Woody em ser rejeitado pela criança Bonnie (deixando-o para trás ou colocando-o no armário), era palpável a angústia de um amante que terminava de forma amarga o relacionamento com o outro, ou o de um pai cujo filho cortou abruptamente o contacto e a afeição. E por isso, não me admirei quando o Eurico de Barros o designou na altura como "Ingmar Bergman no mundo dos brinquedos". Não só a questão levantada era bela, como a resposta encontrada ainda a superava: a necessidade de encontrar um novo lar numa família de outros renegados. A rejeição, o afastamento, a ausência, em súmula, seriam capazes de fundar novos elos entre pessoas que viveram mágoas de semelhante violência psicológica.

Daí que o 5º, recém-chegado aos cinemas do mundo inteiro, me pareça ser o primeiro com sabor a requentado, tal a redundância de temas (do medo da rejeição à transitoriedade das relações) que já vimos anteriormente abordados de modo mais completo na saga, tanto em termos narrativos como emocionais. Que se justifica a existência pelo medo da obsolescência proveniente dos tablets e pela forma como estes vieram a sequestrar a infância das novas gerações? Não nego o argumento. Mas, se o objectivo é enveredar por uma crítica sociológica entre os humanos e a tecnologia, porque não ir mais longe do que um subenredo envolvendo o cyberbullying e uns meros gags ilustrativos do alheamento da realidade que criámos com os aparelhos? Porque não falar na dependência, nas deteriorações das relações interpessoais do nosso núcleo ou nas dificuldades em abandonarmos as nossas bolhas digitais para nos confrontarmos com opiniões contrárias fora delas? Não o fazendo ou sequer o mencionando, o resultado final soa a pouco. E a uma oportunidade perdida. Daí que a solução proposta pelo filme (a do equilíbrio entre o acto criativo de brincar e o comodismo facilitador da tecnologia) soe a politicamente correcta, mas estruturalmente incompleta. Sobretudo, numa semana onde o Reino Unido baniu as redes sociais para menores de 16 anos.

"O tempo passa e os amigos também.", já é dito no filme de Yasujiro Ozu, "O Fim do Outono". Poderia ser a moral de toda a saga Toy Story. Acompanhámos estes brinquedos tempo suficiente para com eles aprendermos a fechar estoicamente velhos capítulos nas nossas vidas e a aceitarmos esperançosamente a abertura de outros diferentes. Talvez seja altura de a Disney começar a fazer o mesmo com a propriedade intelectual que tem em mãos.

Finalmente, deixei de pagar 40€ mensais da NOS de Internet para passar a pagar apenas 10€ pela Digi. Finalmente, deixei de ter de subscrever obrigatoriamente um inútil serviço de telefone fixo para apenas subscrever aquilo que efectivamente quero e preciso e dou uso. Finalmente, estou livre do cartel das telecomunicações portuguesas.