Talvez pela minha crónica falta de jeito para jogar à bola, a qual me levou incontáveis vezes a ouvir, em aulas sofríveis de Educação Física, "Duarte, vai para a baliza", tenho o meu panteão futebolístico exclusivamente ocupado pela figura do guardião. É nela, na posição regularmente encarada como a de patinho feio do relvado ("Guarda-redes?! Guarda-redes é para quem não sabe jogar!", diz o Cristiano Ronaldo ao filho num documentário com o seu nome), que a falta de talento com os pés é simultaneamente punida e recompensada com a última linha de defesa do colossal rectângulo do qual depende a vitória ou a derrota de uma equipa. Não é à toa que o título mais belo de um filme de Wim Wenders é, justamente, "A Angústia do Guarda-Redes no Momento do Penalty". Pois, num jogo de futebol, não há maior pressão psicológica nem colocação onde o mais ínfimo erro se revele fatal do que aquela por que passa o homem das luvas de látex que se atira na obstinada procura em parar o esférico com a força das suas palmas.
Nunca o futebol me proporcionou tanta alegria como no temporalmente longínquo e ainda sentimentalmente próximo Portugal - Inglaterra do Euro 2004, onde a nossa aprovação para as meias-finais foi decidida em dois desafiantes penáltis pelo guardião Ricardo: o primeiro, na imortal defesa sem luvas de um remate de Darius Vassell; o segundo, na marcação do seu golo decisivo que levou Portugal à vitória. Um guarda-redes que escolhe defender sem luvas é o equivalente ao soldado de infantaria que opta por entrar no campo de batalha sem capacete: imprudente, perigoso, tão tremendamente arriscada a tentativa quanto superlativamente admirável se concluída com sucesso. A ansiedade que antecedeu estes dois momentos, assim como a euforia encontrada nos respectivos desfechos, cristalizaram na minha mente a imagem do guarda-redes como a de um atleta menosprezado capaz de ser presentado pela mais memorável glória. E isto numa altura em que os espectadores viam os jogos em canais abertos, estando as televisões do país inteiro sintonizadas ao milissegundo, fazendo um povo sofrer e rejubilar de modo perfeitamente sincronizado (nada de golos com sabor a requentado, como hoje ocorre consoante o canal utilizado e a operadora subscrita).
Ricardo ocupa o topo do meu panteão futebolístico, Mas não está nele só. Acompanho-o com outros, como o soviético Lev Yashin (ainda o único guarda-redes vencedor do Ballon d'Or), o espanhol Iker Casillas (cuja defesa contra um remate da Holanda, na final do Mundial 2010, contribuiu decisivamente para a vitória da selecção espanhola, e onde o prémio mais importante não foi a cobiçada taça da FIFA mas um terno beijo a Sara Carbonero) ou o marroquino Bounou (o percurso de Marrocos no Mundial 2022, muito graças à prestação do seu guardião, foi o mais perto que vi de uma adaptação do Rocky para a vida real).
Por me lembrar disto e por mais, e ainda no rescaldo da derrota da Noruega contra a Inglaterra (que em nada eclipsa o seu extraordinário desempenho contra o Brasil), passa então a constar, neste meu humilde panteão, ele: Ørjan Nyland.



