sábado, 10 de agosto de 2019

"Don't tell anyone - I'm a poet", disse o Powell num documentário

Devo estar só com esta opinião, mas para mim os melhores filmes do Powell são os que são filmados no campo. Talvez por ter passado a infância no meio rural de Kent, é deslumbrante a sensibilidade singular que adquiriu em filmar as nuvens no céu, a queda da chuva, o vento nas árvores e campos de trigo, de fazer, em suma, sentir a força dos elementos (que, de uma maneira ou outra, se entrelaçam com a turbulência emocional das histórias humanas que o realizador retrata, cimentando-a, comentando-a, reflectindo-a) em enquadramentos de composições pictóricas que alicerçam uma atmosfera mística e romântica em todo o seu jogo de escalas, diagonais e silhuetas. Por isso, para mim, ele estava a ser totalmente modesto quando se auto-intitulou de poeta.
Gone to Earth (1950), Michael Powell & Emeric Pressburger


sexta-feira, 19 de julho de 2019

O meu momento "Nova Gente" cinéfila deste dia

Vi o "Man's Castle" do Borzage, cheguei ao final e pensei, "nah, a Loretta Young e o Spencer Tracy claramente que tinham alguma coisa na vida real por esta altura." Fui pesquisar e descobri que tinha razão. Há olhares que não enganam ninguém. Mesmo que venham de dois dos actores mais convincentes que já existiram.


terça-feira, 16 de julho de 2019

Isto já estava lá tudo

Não é novidade nenhuma dizer isto, mas tudo ou quase tudo aquilo que caracteriza o cinema de Michael Mann está logo presente no seu primeiro filme. Que, mais néon menos néon, mais bandido menos bandido, se pode resumir em três pontos-chave: a noite na cidade, as mãos (seja ao trabalho ou a agarrarem-se), e uma linha distante onde mar e céu se tocam, que talvez esconda o único sítio onde os protagonistas de Mann possam encontrar um pouco de paz para o cansaço existencial que levam.


Thief (1981), Michael Mann

quarta-feira, 5 de junho de 2019

A kiss isn't just a kiss

Já não o desde via há um tempo e decidi aproveitar para descobrir a "versão preview" do My Darling Clementine do Ford.

Para os que não sabem, o filme acabava originalmente com um aperto de mãos entre o xerife Wyatt Earp e Clementine, antes deste se fazer à estrada, após falarem na hipótese do seu regresso. Quando o filme passou por uma exibição teste, as audiências riram-se com o dito gesto de despedida, pedindo nos cartões comumente atribuídos nestas ocasiões que ocorresse, ao invés, um beijo entre eles. Zanuck, que estava à frente da Fox na altura, viu a reacção provocada, leu a dita sugestão e, para desgosto de Ford, ordenou a filmagem de um grande plano com o cobiçado ósculo, criando a versão mais divulgada e conhecida do filme. 

Agora, este simples enquadramento faz uma diferença imensa entre um caso e outro. Antes dele havia a sensação de ciclo, da necessidade do protagonista em partir para outra cidade que precisa mais dele do que Clementine, e que a sua existência se resumiria inevitavelmente à elaboração do dever de forma emocionalmente descomprometida. Com a sua adição, fica vincado o desejo apaixonado de retorno, tornando a união entre Earp e Clementine num futuro indefinido mais palpável. Porque, ao contrário do que diz a canção, aqui um beijo não é apenas um beijo, anuncia uma abrupta mudança interna da personagem (pode-se traçar um paralelismo entre este momento e aquele em que John Wayne pega Natalie Wood nos braços, perto do final de The Searchers), o término da postura tímida e afectuosamente repressiva que Earp tinha mostrado diante de Clementine até ali. Após a erradicação do mal em Tombstone, Earp está finalmente apto em exprimir-se sentimentalmente para com ela, fazendo daquele gesto terno o mais lógico para marcar o fim da sua jornada de violência e a possibilidade do alcance de um pouco de paz num lugar remoto das paisagens americanas. 

E tudo isto para dizer que a conclusão que tirei ao comparar as duas versões foi esta: que um plano pode alterar toda a interpretação que se tira de uma cena, que um gesto pode mudar a maneira de ver o que se poderá seguir sobre duas personagens, que a diferença entre um filme muito bom e uma obra-prima talvez possa estar em algo tão simples como um beijo.