domingo, 26 de novembro de 2017

Sorcerer

Quanto mais William Friedkin vejo, mais me convenço da redutibilidade que há no epíteto de "o realizador d'O Exorcista".

Dito isto, e acabado de sair do abanão austero existencialista de William Friedkin, Sorcerer, é de louvar a perfeita domação de tempo e espaço da cena em que o camião do título atravessa uma ponte de madeira, onde o físico dos homens se contrapõe à violência natural (quem nunca sentiu a chuva ao ver um filme, tem aqui uma boa oportunidade para descobri-la), num misto arrepiantemente realista de som e fúria. É ver cada posição de câmara restringindo a acção ao seu ponto mais cru, sem deixar de encontrar uma fotogenia própria e vivamente agressiva com a paisagem que a circunda. Ou ainda, a incerteza conclusiva que predomina em cada plano, devidamente mesurada numa montagem precisa, salientada pelas densas camadas do som dos motores em heterogeneidade com a tempestade punitiva que se abate sobre eles.

E que dizer do filme? Prova de que um remake pode ser, no mínimo, tão bom quanto o original (O Salário do Medo), por simplesmente manter alguns pontos narrativos em comum, mas usando-os perversamente para abarcar uma visão mais cínica do mundo, com o espírito de camaradagem abafado e onde nem a redenção é suficiente para impedir a entrada dos erros passados pela porta do salão onde se faz a última dança.

Chef d'oeuvre!, apetece gritar. E talvez a melhor coisa a sair do fatalismo da Nova Hollywood que envolva uma filosofia ontologicamente discreta personificada por veículos, juntamente com o sublime The Driver.



domingo, 29 de outubro de 2017

O Horizonte de John Ford


Acabado de sair da versão enternecedora de Directed by John Ford feita por Peter Bogdanovich em 2006, não resisto em partilhar a história que um dos entrevistados relatou sobre um encontro que teve com o cineasta, quando tinha apenas 15 anos.

"Entrei no escritório dele e vi-o de botas calçadas, em cima da secretária. Perguntou-me o que queria dali. Respondi-lhe que queria ser cineasta. 
Ele olhou para mim, de cima para baixo. Depois, apontou para o primeiro de uma série de quadros que tinha numa parede.
-Vai para ali - disse-me. 
Eu fui e vi um retrato de um índio num cavalo.
-Onde está o horizonte? - perguntou-me. 
Eu apenas respondi:
-Em baixo. 
-Boa, agora vai para o próximo. Onde está o horizonte agora? 
-Em cima - respondi-lhe. 
-Muito bem - disse ele - se alguma vez aprenderes a apreciar a arte de um horizonte em cima ou em baixo, ao invés de directamente no meio, então talvez possas vir a ser um bom cineasta. Agora, sai-me daqui."

Decorria o ano de '61. O nome do rapaz era Steven Spielberg.


The Grapes of Wrath (1940)

My Darling Clementine (1946)

Fort Apache (1948)
She Wore a Yellow Ribbon (1949)

Wagon Master (1950)

The Searchers (1956)

sábado, 14 de outubro de 2017

Uma vez perguntaram ao Robert Mitchum se ele seguia o método Stanislavski.
"Não", respondeu Mitchum, "mas sigo o método Smirnoff.".

Patrão.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Sputum, miraculum

Das várias histórias dos bastidores do cinema, uma das menos conhecidas é a da primeira exibição do Couraçado Potemkine, no Teatro Bolshoi, em 1925.

Estava Eisenstein na sala de montagem com o período definido de 3 semanas para a edição do filme prestes a findar, quando, inesperadamente, se lhe termina a cola com que trabalhava o final da película. Com medo de misturar os fragmentos soltos que o compunham e na esperança de que se tratasse de uma situação temporária eis que, num gesto açodado, cola estes pedaços com o seu revolucionário cuspe.

Mas os dias passam, o nosso guedelhudo de eleição entrega assim mesmo o seu trabalho e não mais se lembra do seu erro até àquela noite fria de Dezembro no dito teatro. Quase a entrar em pânico, diz para si enquanto percorre, nervosamente, os corredores do edifício: "Pedaços de filme virão a voar do projector! O final será sufocado, assassinado!". Como reagiria a audiência a este violento desfecho?

Eis então que chega a derradeira bobine e... "um milagre! O cuspo aguenta! O filme corre até ao fim! Quando voltámos à sala de montagem não acreditámos nos nossos olhos - nas nossas mãos os fragmentos separavam-se sem o menor esforço e, no entanto, tinham sido unidos por uma força mágica à medida que corriam, como um todo, pelo projector."

Um filme colado a cuspo que se aguenta até ao fim? Ora, eis uma boa definição de "milagre".

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

"Fais que ton rêve soit plus long que la nuit."

(Título de um álbum de Vangelis em torno do Maio de '68 e, provavelmente, a frase mais bonita que se possa dizer a quem ambicione começar qualquer coisa como uma revolução.)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Últimos hurrahs

A última aparição pública de John Wayne foi quando entregou o Óscar de melhor filme em 1979 a O Caçador (exactamente 2 meses e 2 dias antes da sua morte). À procura desse momento, encontro a versão completa dos últimos 10 minutos da cerimónia, onde um Wayne elegantíssimo desce as escadas com uma alegria de quem sabe que a cidade precisa do seu xerife confiante a cada manhã para estar em completo sossego. E é absolutamente avassaladora, sem deixar de ser comovente, a forma como mantém essa postura mesmo no seu discurso proferido com um pulmão e 4 costelas a menos, "Vou estar cá por muito mais tempo.". As suas derradeiras palavras para uma câmara, um "Good night" enrouquecido e abafado pelo som dos aplausos, à medida que sai do enquadramento com as palmas das mãos para baixo e polegares enfiados no colete formal. Um cowboy durão até ao fim. Acredito que o Ford havia de estar a ver isto com o charuto no canto do lábio e a pensar "Meu sacana, não sabia que eras capaz de apresentar.", lá na sua colina do Monument Valley onde vive e tudo vê.

Mas dizia, encontrei a versão completa e qual não é o meu espanto quando, uns minutos antes deste momento, me deparo com o Coppola pré-bezanas prestes a entregar o prémio de realização e a dizer com uma confiança que hoje é impossível escutar sem abanar a cabeça, em tom condescendente "Vejo uma revolução! Acredito que nos anos 80 os filmes produzidos estarão para além dos nossos sonhos!". Ah, a ironia...

Dito isto, esqueci-me se o propósito deste post era falar do Wayne ou da Nova Hollywood, mas admiro que em 10 minutos tanto o Duque como o Padrinho tenham feito o melhor que as suas artes permitiam: criar a ilusão de que o que se estava a assistir era o sinal de algo grandioso e que só viria a melhorar com os anos. Mentiras necessárias para fazer acreditar que, tanto na vida como no cinema, vale sempre a pena ficar à espera. Sinais de esperança, vindos em últimos hurrahs. Ainda hoje precisamos deles.