A minha relação com a saga Toy Story tinha sido, na minha juventude, de algum desapego, fruto de traumas infantis deixados pelos brinquedos mutantes do delinquente Sid no 1º filme e do braço de trapos de Woody rasgado, arrancado e cosido no 2º. Quando chegou o 3º, comigo já em plena adolescência, pareceu-me ser um filme com um final bonito, mas onde o que lhe antecedia não era definitivamente capaz de o igualar.
Foi só com o 4º, já em jovem adulto, que adquiri genuína estima pela saga a partir da premissa de preocupações universais (e, por isso, bela) que o filme propunha: se o sentido que conferimos às nossas existências está em amarmos e fazermos alguém feliz, o que fazemos quando esse alguém nos renega? Pois no medo existencial de Woody em ser rejeitado pela criança Bonnie (deixando-o para trás ou colocando-o no armário), era palpável a angústia de um amante que terminava de forma amarga o relacionamento com o outro, ou o de um pai cujo filho cortou abruptamente o contacto e a afeição. E por isso, não me admirei quando o Eurico de Barros o designou na altura como "Ingmar Bergman no mundo dos brinquedos". Não só a questão levantada era bela, como a resposta encontrada ainda a superava: a necessidade de encontrar um novo lar numa família de outros renegados. A rejeição, o afastamento, a ausência, em súmula, seriam capazes de fundar novos elos entre pessoas que viveram mágoas de semelhante violência psicológica.
Daí que o 5º, recém-chegado aos cinemas do mundo inteiro, me pareça ser o primeiro com sabor a requentado, tal a redundância de temas (do medo da rejeição à transitoriedade das relações) que já vimos anteriormente abordados de modo mais completo na saga, tanto em termos narrativos como emocionais. Que se justifica a existência pelo medo da obsolescência proveniente dos tablets e pela forma como estes vieram a sequestrar a infância das novas gerações? Não nego o argumento. Mas, se o objectivo é enveredar por uma crítica sociológica entre os humanos e a tecnologia, porque não ir mais longe do que um subenredo envolvendo o cyberbullying e uns meros gags ilustrativos do alheamento da realidade que criámos com os aparelhos? Porque não falar na dependência, nas deteriorações das relações interpessoais do nosso núcleo ou nas dificuldades em abandonarmos as nossas bolhas digitais para nos confrontarmos com opiniões contrárias fora delas? Não o fazendo ou sequer o mencionando, o resultado final soa a pouco. E a uma oportunidade perdida. Daí que a solução proposta pelo filme (a do equilíbrio entre o acto criativo de brincar e o comodismo facilitador da tecnologia) soe a politicamente correcta, mas estruturalmente incompleta. Sobretudo, numa semana onde o Reino Unido baniu as redes sociais para menores de 16 anos.
"O tempo passa e os amigos também.", já é dito no filme de Yasujiro Ozu, "O Fim do Outono". Poderia ser a moral de toda a saga Toy Story. Acompanhámos estes brinquedos tempo suficiente para com eles aprendermos a fechar estoicamente velhos capítulos nas nossas vidas e a aceitarmos esperançosamente a abertura de outros diferentes. Talvez seja altura de a Disney começar a fazer o mesmo com a propriedade intelectual que tem em mãos.
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