segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Aula de cinema

«Alfred Hitchcock (AH): (...) O que não compreendo é que alguém se apodere realmente de uma obra ou de um bom romance cujo autor empregou 3 ou 4 anos em escrever e que constitui toda a sua vida. Manipula o assunto, rodeia-se de uns artesãos e técnicos de qualidade e temos candidaturas aos óscares, enquanto o autor se dilui em segundo plano. Não se pensa mais nele.

François Truffaut (F.T.): Isso explica porque não filmará "Crime e Castigo".

A.H.: E adicione o facto de que não ficaria bom.

F.T.: Porquê?

A.H.: Se pegar num romance de Dostoievski, não só "Crime e Castigo" mas qualquer um, tem muitas palavras e todas têm uma função.

F.T.: E uma obra-prima é, por definição, algo que já encontrou a sua forma perfeita e definitiva?

A.H.: Exatamente. E para expressar o mesmo de uma maneira cinematográfica, seria necessário substituir as palavras pela linguagem da câmara e rodar um filme de 6 ou 10 horas, caso contrário não funcionaria.

F.T: Para além disso, o seu estilo em particular e as necessidades do suspense obrigam-no constantemente a jogar com a duração do tempo, a comprimi-la às vezes, mas com maior frequência a dilatá-la, e por ele o trabalho da adaptação de um livro é muito mais diferente para si que para a maioria dos cineastas.

A.H.: Sim, mas comprimir ou dilatar o tempo, é a principal função de um realizador? Não crê que o tempo do cinema deva ser independente do tempo real?

F.T.: Sim, é um elemento essencial, mas isto só se pode descobrir ao fazer o primeiro filme, por exemplo, as acções rápidas devem descomprimir-se e dilatar-se, caso contrário seriam imperceptíveis para o espectador. Faz falta ofício e autoridade para controlar isto.»

Hitchcock / Truffaut


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