domingo, 16 de julho de 2023

Já há muito que tenho esta teoria: o teste do algodão que assegura a grandiosidade de um artista musical popular é ouvi-lo em acústico. Tire-se a complexidade das produções de estúdio da música contemporânea e avalie-se como se aguentam as canções naquilo que define o "back to basics": uma voz, uma guitarra e a força das letras. Quando bem-sucedida, uma versão acústica deixa a substância lírica e desempenho vocal melhor evidenciados, removendo o que antes estava ligeiramente abafado pelo arsenal electrónico que assegura a comercialidade de um "hit", para aproximar ainda mais o ouvinte das emoções, ideias e reflexões que levaram o cantautor a escrevê-la. Sei que são opiniões pouco consensuais, mas é por isso que faço parte do pequeníssimo grupo de pessoas que diz que o grande disco dos Nirvana é o "MTV Unplugged in New York" e que prefere o trio de álbuns acústicos pouco célebres do Springsteen ("Nebraska", "The Ghost of Tom Joad", "Devils & Dust") a alguns dos mais famosos e recordados ("The River", "Born in the USA", "The Rising").

Dito isto, o que peço para Maio é só uma coisa: que, no meio de todos os bailarinos, cenários, gruas, jogos estroboscópicos de luzes e outros componentes faustosos que caracterizam a megalomania broadwayesca de um concerto da Taylor Swift, haja tempo - nem que sejam apenas 5 minutos de glória confessional como estes - para a simplicidade do ambiente intimista de uma mulher iluminada por um modesto holofote a meio da noite, a sua fiel guitarra e as histórias que tem para cantar. E nós com ela.

sábado, 15 de julho de 2023

Eu não tinha nenhuma opinião formada quanto à actual greve em Hollywood. Agora, tenho uma: espero que não haja pressa em terminá-la.

segunda-feira, 3 de julho de 2023

No princípio de 2022, optei por deixar de ser "crítico de cinema" internético, tendo terminado amigavelmente a colaboração de alguns anos com o À pala de Walsh. Desde então, não voltei a escrever ou a falar publicamente sobre filmes (o que aqui é escrito são só bojardas, e esporádicas sessões onde participei como moderador não contam), o que levou o país a beneficiar com isso. As provas? Nesse ano, o programa de vacinação contra a Covid foi completado com sucesso, a pandemia rapidamente deixou de ser assunto, e Portugal cresceu 6,7% na economia, o valor mais elevado desde 1987.

Incapaz de ver a manifesta relação de causalidade entre uma decisão individual e o bem-estar da nação, o António Araújo quis-me tirar, temporariamente, do meu refundido eremitério, convidando-me para dialogarmos sobre o novo Indiana Jones no seu podcast Segundo Take. Se a NATO declarar efectivamente guerra à Rússia, e Portugal for fatidicamente obrigado a recrutar e enviar civis para combater, culpem-no a ele.

sábado, 1 de julho de 2023

Aquilo que caracteriza um filme do James Mangold é o seguinte: há uma personagem com um defeito físico particular, símbolo somático da insegurança, do medo, do cansaço, em suma, de alguma espécie de vulnerabilidade que o herói mangoldiano traz dentro de si, o que o leva a entrar numa jornada pessoal de auto-superação: "Heavy", um cozinheiro obeso que tenta dizer a uma rapariga que a ama; "Copland", um xerife semi-surdo que luta contra a corrupção policial da sua cidade; "3:10 to Yuma", um rancheiro de pé amputado que leva um bandido procurado a uma locomotiva; "Logan", um mutante de corpo envenenado que transporta uma criança para longe da violência. E em "Indiana Jones and the Dial of Destiny" é um arqueólogo envelhecido que tem de salvar o mundo dos nazis uma última vez.

É um filme do Indy? Sim. E, tão ou mais importante do que isso, é também um filme de James Mangold. Foi possível ter-se, se não o melhor, algo pouco longe disso, dos dois mundos. Que se arrume o chicote e o chapéu Fedora de vez.

domingo, 25 de junho de 2023

Olha-se para os filósofos como gente sisuda, séria e circunspecta. Mas um dos grandes filósofos cínicos da História, Diógenes de Sinope, derruba em tudo esse estereótipo. Eis um filósofo "punk", a quem definiram como "Sócrates enlouquecido", que escolheu voluntariamente ser sem-abrigo, que vilipendiava todas as conveniências e estatutos sociais, que andava de lanterna acesa durante o dia porque estava (citando-o) "à procura de um homem honesto", e que possuía um sentido de humor acrimonioso capaz de originar uma série de acontecimentos anedóticos. Eis alguns deles:

Quando Platão leccionava que um homem era um "ser bípede sem penas", Diógenes foi buscar uma galinha, depenou-a, aproximou-a do professor e da sua turma e vociferou: "Olhem! Um homem!"

Quando Alexandre, o Grande, tendo já ouvido falar do comportamento excêntrico de Diógenes, e apanhando-o deitado na rua, disse-lhe, "Pede-me o que tu quiseres", levou como resposta, "Quero que me saias da frente. Estás-me a tapar o Sol."

Quando lhe asseveraram, "Os habitantes de Sinope condenaram-te ao exílio", replicou, "Sim, e eu condenei-os a ficarem no sítio onde estão."

Quando, numa festa, lhe disponibilizaram um copo de vinho, não hesitou em deitá-lo fora. Ao ser repreendido, justificou-se, "Se eu o bebesse, não seria só o vinho que estaria perdido, mas eu também."

Quando praticava o onanismo, fazia-o em público, e dizia, "Ah, se fosse possível acabar com a fome esfregando o estômago."

Quando pedia dinheiro a alguém e este se mostrava indeciso, proferia, "Estou-te a pedir dinheiro para me alimentar, não para me pagares o funeral."

Quando pedia dinheiro a uma estátua e lhe perguntavam o porquê de tão inútil gesto, respondia, "Estou a ganhar prática em ser rejeitado."

Quando vozeava, "Ei, homens!", e as pessoas vinham ter com ele, gritava-lhes, "Eu pedi homens, não escória!"

Quando foi convidado para a casa luxuosa de um homem rico e requisitaram-lhe que não cuspisse, ele expectorou para a cara do anfitrião, afirmando, de seguida, que não encontrava pior sítio para o fazer.

E ainda há quem ache a Miley Cyrus "rebelde" por lamber martelos.

Diógenes (1860), Jean-Léon Gérôme

Talvez a única coisa boa que um mercado cinematográfico sobressaturado de filmes de super-heróis distribuídos pela Disney tenha trazido seja o estímulo à diferenciação na concorrência. Se estúdios de relativa menor dimensão querem encontrar sucesso artístico, crítico e financeiro, sem recorrerem à estratégia de serialização "ad infinitum" que caracteriza o MCU, são forçados a puxar pela criatividade, pelo risco e pela experimentação. Como tal, "Logan" (FOX) foi beber a sua inspiração aos westerns cansados de Clint Eastwood, "Joker" (Warner Bros. / DC) ao cinema desconfortável da Nova Hollywood e "Spider-Man: Into the Spider-Verse" (Sony) aos filmes psicadélicos dos anos 60 e 70. 

A sequela deste último mantém a tendência do original e continua a elevar as potencialidades do cinema de animação para patamares arrojados e estilisticamente anárquicos, misturando correntes pictóricas tão diferentes como impressionismo, arte de rua ou "pop art", e fazendo uso de dispositivos cinematográficos tão diversificados como "split screens", "jump cuts" ou inversões do eixo horizontal de câmara. Se é grande cinema (e, para mim, é), fica a cada um fazer essa avaliação. Mas creio que é consensual que se trata, pelo menos, da maneira mais saudável, barata e segura de ter uma "trip" psicadélica.

Spider-Man: Across the Spider-Verse (2023), Joaquim Dos Santos, Kemp Powers e Justin K. Thompson

sábado, 17 de junho de 2023

O católico negacionista diz que a Inquisição da sua fé nunca matou ninguém (as que mataram, alega, foram as Protestantes). 

O católico negacionista afirma que os livros escolares de História onde o aprendemos foram escritos por autores tendenciosos com opiniões próprias sobre a religião. 

O católico negacionista exprime que os livros escolares de História são livros de lendas para rapazinhos. 

O católico negacionista declara que não devo confiar nos meus professores de História porque não tenho provas de que eram os alunos mais brilhantes dos seus cursos.

O católico negacionista profere que a Inquisição não atrasou o progresso da ciência. 

O católico negacionista argumenta que Galileu não foi forçado a abjurar os seus estudos quanto ao modelo heliocêntrico, mas apenas as ligações que afirmava que tinham com a Bíblia.

O católico negacionista proclama que a Igreja não encobriu o escândalo da pedofilia e só se limitou a respeitar a privacidade da confissão dos seus servidores. 

O católico negacionista opina que alguém só pode ter uma opinião formada e válida sobre a Inquisição se ler cada acta inquisitorial da altura. 

O católico negacionista leu. 

O católico negacionista sabe. 

O católico negacionista grita que só respeita o pluralismo de opiniões se elas tiverem sido fundamentadas nas suas referências. 

O católico negacionista tira-me da treva da ignorância com a luz da sua sapiência. 

O católico negacionista que vá para a Maria Madalena que o pariu.