domingo, 19 de abril de 2026

"O Padrinho" e o departamento dos Recursos Humanos

Salvo erro, era o crítico Serge Daney que dizia "Não és só tu que vês os filmes a envelhecer; eles também te vêem a envelheceres". Sempre a interpretei como uma variação cinéfila do aforismo heraclitiano, "Não te podes banhar no mesmo rio duas vezes". Que é como quem diz, tal como o indivíduo e as águas dos rios mudam, também o nosso olhar sobre os filmes que vimos vai-se transformando, moldado pelas nossas experiências individuais e a forma como estas afectam a nossa mundividência em diferentes fases da vida.

Dito isto, revi, pela primeira vez em muitos anos (dez? quinze?), a trilogia completa O Padrinho. Não será original delinear paralelismos entre a intriga destes filmes e o capitalismo. Pois, ao fim e ao cabo, o que é Vito Corleone a não ser um CEO veterano e venerado de uma grande empresa, portadora de um portfólio negocial bastante diversificado (o jogo, o álcool, a prostituição), cuja posição de mercado se vê ameaçada com o surgimento de um novo produto que não domina (a droga)? E, como qualquer CEO envelhecido, também Corleone é percorrido por uma fatal questão atormentante: "Com a minha saída, quais as melhores mãos onde posso deixar esta empresa?"

Mas o que achei mais curioso, no entanto, é a forma como o filho, Michael Corleone, à medida que assegura o futuro da Máfia assumindo o lugar do pai, vai tendo as suas relações pessoais afectadas, nomeadamente pelo gradual afastamento da mulher, Kay, a qual vai deixando de reconhecer o marido quanto mais este mergulha no negrume moral inerente aos gestos decisórios capazes de consolidarem o seu poder. Michael é um homem de negócios. A prioridade são os negócios. E é a forma excessivamente dedicada e eticamente pouco limitada como se vai dedicando a eles que aliena os que mais bem lhe querem.

E é aqui que, fruto de demasiadas conversas de escritório e publicações de terceiros no Linkedin, humildemente dou os meus dois tostões para futuras análises da trilogia. Para além de um tratado cinematográfico sobre a família, o poder e o crime, porque não falar d'O Padrinho como uma obra em torno dos riscos da falta de um equilibrado work-life balance?

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