quinta-feira, 23 de abril de 2026

Da empatia

Torna-se difícil discutir temas que envolvam minorias sem ouvir, do outro lado, a razoável questão (colocada, usualmente, em menos razoável tom): "Então e a empatia?!" Mas empatizar não basta para dar o assunto por terminado, sendo necessário abordar, com honestidade e pragmatismo, a situação abordada na sua real complexidade em termos de consequências e de como estas se podem fazer sentir.

Exemplos? 

Podemos falar de empatia pelos toxicodepentes e acharmos positivo a abertura de uma sala de consumo assistido. Mas também temos de empatizar pelos moradores daquele bairro, na insegurança que irão experienciar com a possibilidade da existência de tráfico e consumo a céu aberto, assim como de seringas perigosamente deixadas ao relento, se a dita sala demonstrar ter uma capacidade de resposta insuficiente.

Podemos falar de empatia pelos imigrantes e defender uma legislação mais permissível e humanista quanto ao controlo de fronteiras. Mas também temos de empatizar pelos moradores das zonas mais atingidas por esta imigração e tentar minimizar eventuais tensões sociais que venham na sua subsequência.

Podemos falar de empatia pelas pessoas trans e intersexo, deixando-as participar nas categorias desportivas do género no qual se identificam. Mas também temos de empatizar pelas mulheres que abnegaram de uma vida académica, social e profissional regular para se dedicarem a um desporto cujo momento de glória lhes poderá ser negado ao competirem com atletas portadores de características físicas, anatómicas e hormonais mais vantajosas.

A empatia pelas minorias é importante? Claro que sim. Mas não menos importante é a empatia pelas maiorias directamente afectadas por elas. Ignorar uns em prol de outros leva à sensação amargosa de que o cidadão comum foi relegado pelas instituições que o deveriam proteger e servir. Também isso explica o ressentimento social. E a falta de empatia.

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