quinta-feira, 15 de junho de 2023

Disseram-me que falo como escrevo. Ao princípio, tive a presunção de achar que o curioso comentário se tratava de um subtil elogio. Mas depois compreendi o seu verdadeiro significado. É que a minha caligrafia está só meio ponto acima da de médico. E a minha dicção, muito abaixo da dos locutores que relatam os efeitos secundários em anúncios farmacêuticos.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Cormac McCarthy (1933 - 2023)

«Nunca dorme, diz ele. Diz que nunca vai morrer. Faz uma vénia aos músicos e saracoteia-se às arrecuas e atira a cabeça para trás e a plenos pulmões e é muito benquisto entre os presentes, o juiz. Agita o chapéu e a cúpula lunar do seu crânio passa sob os candeeiros em reflexos pálidos e ele ginga para cá e para lá e apodera-se de uma rebeca e faz piruetas e rodopia uma vez, duas vezes, a dançar e a tocar rebeca ao mesmo tempo. Tem o pé leve e ligeiro. Nunca dorme. Diz que nunca vai morrer. Dança na luz e nas sombras e é muito benquisto. Nunca dorme, o juiz. Dança, dança sempre. Diz que nunca vai morrer.»

«Meridiano de Sangue», Cormac McCarthy. Trad. Paulo Faria

domingo, 11 de junho de 2023

Até a realizar pornografia o Ferrara faz questão de deixar patente as suas influências católicas. Isto, sim, é autorismo hardcore. Feito por alguém de fé muito firme.*



9 Lives of a Wet Pussy (1976), Abel Ferrara

*Antes que alguém mais puritano e susceptível pense, "Então, mas este depravado vê pornografia, agora?", respondo citando David Thomson, "The Big Screen", pág. 432: "Vejo-os [filmes pornográficos] enquanto historiador ou comentador de cinema, o que significa que tento descrever a experiência cinematográfica. Tal como se estivesse a escrever sobre Ophuls, Renoir, ou Welles, que envolvem a experiência fílmica de um momento particular." É mais ou menos aquilo de que se trata aqui, 'tá?

terça-feira, 6 de junho de 2023

Tenho sido um relativo evangelizador desta nova fase de Abel Ferrara - do seu sentido de urgência, da sua vertente experimental, do seu caos controlado, em suma, da sua liberdade cinematográfica - mas o "Padre Pio", minha nossa, é razão para declarar a apostasia.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

O mais curioso de se ver no vídeo do Apple Vision Pro (os recém-anunciados óculos de realidade mista da maçã multinacional norte-americana) é a regularidade com que os seus vários utilizadores aparecem completamente sós. Certo, há 2 momentos em que tal não acontece: quando uma rapariga é interrompida para falar com uma amiga que suspende a sua reclusão (o que pouco tem a ver com o dispositivo) e quando um pai filma as brincadeiras das suas filhas (o que nem é a principal funcionalidade deles, embora, inevitavelmente, levante questões interessantes sobre se o futuro normal do entretenimento audiovisual não passará por este uso extensivo do ponto-de-vista do actor). Mas o entusiasmo com que as pessoas vêem cinema, desporto, ou apenas fotografias dos seus álbuns pessoais é um entusiasmo solitário, atomizado, impossível de ser compartilhado com os mais próximos por não estarem instrumentalmente dotados para verem o que o outro vê. Coisas que até aqui tomávamos como normais, acessíveis com qualquer televisão ou computador (a comédia romântica com a parceira, o jogo de futebol com os amigos, a exposição à família das fotografias das últimas férias), tornam-se, com este portentoso aparelho, simplesmente irrealizáveis. A afirmação do prazer implica a negação da partilha real da sua experiência. É um óptimo reflexo que confirma o futuro da sociedade que gradualmente tem vindo a surgir: quanto mais tecnologicamente musculada, mais gregariamente se encontra subnutrida.

sábado, 3 de junho de 2023

Fuma. Bebe. Fuma. Beija a Nina Hoss. Bebe. Fuma. Bebe. Toma café com a Robin Wright. Fuma. Fuma. Bebe. Passeia de barco pelos rios de Hamburgo. Bebe. Bebe. Fuma. Tranca-se numa sala com a Rachel McAdams. Fuma. Bebe. Bebe. Janta fora com a Robin Wright. Fuma. Fuma. Fuma. Fuma. Fuma. "A Most Wanted Man" foi o último filme protagonizado e estreado em vida com Philip Seymour Hoffman, poucas semanas antes de ter morrido de uma overdose. Não parece ter mal aproveitado o tempo que lhe devotou.