sábado, 9 de fevereiro de 2019

Entrevista no podcast "À Beira do Abismo"

O Rui Alves de Sousa há-de ser a pessoa com mais iniciativa e energia que conheço. Crítico de cinema na Take Cinema Magazine, dos poucos que ainda acredita na relevância da blogosfera (para além do blog Companhia das amêndoas, ele é também fundador do colectivo Má Educação), co-criador ou criador dos podcasts Escolhe Tu e do já terminado Um Lance no Escuro... Mas o Rui é, acima de tudo, um amigo a quem dá sempre gosto trocar dois dedos de conversa. Ora, foi sob a perspectiva de uma conversa amigável que teve ele a simpatia de me convidar para aquele que é o seu podcast pessoal, À Beira do Abismo, o qual já venho seguindo desde há uns tempos, onde ele entrevista pessoas de diversas áreas (cinema, música, literatura, teatro...) que têm todas em comum o facto de serem bastante simpáticas e o terem coisas interessantes para dizerem. Como achei que faltava uma excepção à regra, aceitei, e os nossos temas de conversa resumiram-se às duas palavras mais bonitas do mundo (quer dizer, para mim são as duas palavras mais bonitas do mundo): cinema e Springsteen.

Deixo um sincero obrigado ao Rui pela experiência (até aqui era sempre eu quem segurava o microfone em entrevistas, e ainda bem) e votos para que continue a presentear-nos com o belo trabalho que tem feito em todos os diversos sites, blogs, podcasts, etc etc etc.

* iTunes: apple.co/2t43vKR
* Spotify: spoti.fi/2Ss8H9O
* Mixcloud: bit.ly/2qd9H21 
* YouTube: bit.ly/2SKmxnM 
* Castbox: bit.ly/2t44bQp

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Depois de tantos recordarem Jonas Mekas-cineasta, recordar Jonas Mekas-crítico com o seu texto sobre Une femme douce, um dos mais bonitos que conheço em torno de um filme de Bresson.

«Here is what I thought, walking home from "Une femme douce".
"Une femme douce" is a film about diagonals. Diagonal angles, diagonal glances. About eyes that never really meet. A film without a single frontal shot. A film about three-quarter spaces. About the sound of closing doors. About the sound of footsteps. About the sound of things. About the sound of water. About shy glances. About unfinished glances. About the sound of glass. About death in our midst. About light falling on faces. About lights in the dark, falling on faces. About blood on the forehead. About unfinished playing records. About a white crêpe blouse. About blue. About flowers picked and never taken home. About the roaring of cars. About the roaring of animals. About the roaring of motorcycles. About green. About how life and death intercut with each other. About hands giving and taking. About hands. About bourgeois pride. About pride. About lights on the door. About lights behind the door. About doors opening and closing. About bourgeois jealousy. About jealousy. About lamps turned out. About brown and yellow. About yellow. About indirect glances. About glances. About one peaceful glance (in the gallery, Schaeffer?). About unfinished records. About doors opening and closing. About doors opening very gently. About a half-opened door. About people standing behind glass doors and looking in. About fool's hope. About hopes. About a window which doesn't lead into life. About a red car seat. About a red shop window. About standing behind a door, looking in. About a green bed and green curtains. About a happy smile in the mirror, at oneself. About eyes which do not look even when asked. About the sound of metal. About sleep. About two diagonal lives.»
Une femme douce (1969), Robert Bresson


segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

"Não se mexe nas coisas, ai ai ai!", gritou para o ecrã uma menina dos seus 3 anos, a dois lugares ao meu lado, enquanto esta cena passava na sessão de ontem da Cinemateca Júnior. Ó-pá...

Yoyo (1965), Pierre Étaix

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Filmar a ausência

Não tinha ainda visto o Ida e gostei particularmente deste momento, com a secura da câmara e inexpressão da montagem diante a saída de cena (e do mundo) de uma personagem. Nenhum drama, nenhuma hesitação, e ao mesmo tempo a tremenda indiferença com que o sujeito filmado dá o derradeiro salto, feito com a maior naturalidade, deixando o espectador de olhos fixos no céu. Nenhum plano subjectivo durante a queda, nenhum corte para o chão no seu fim, nada. É a sensação fixa de vazio do quarto que permanece. Filmar a ausência é qualquer coisa como isto.

La meglio gioventù (2003), Marco Tullio Giordana
Ida (2013), Pawel Pawlikowski


sábado, 1 de dezembro de 2018

«Ao entrar no quarto, eu ficara de pé no limiar, não ousando fazer barulho, e outro não ouvia senão o do seu hálito, que vinha expirar-lhe nos lábios, em intervalos intermitentes e regulares, como um refluxo, mas mais entorpecido e mais doce. E no momento em que os meus ouvidos recolhiam esse rumor divino, parecia-me que era, condensada nele, toda a pessoa, toda a vida da encantadora cativa, ali estendida sob os meus olhos. (...)

Então, sentido que o seu sono estava no auge, que eu não chocaria com escolhos de consciência agora cobertos pela maré-cheia do sono profundo, saltava deliberadamente e sem rumor para cima da cama, deitava-me ao longo dela, enlaçava-lhe a cintura com o braço, pousava os lábios na face e no seu coração, depois, em todas as partes do seu corpo, a minha mão livre e que também era soerguida, como as pérolas, pela respiração da adormecida; eu próprio era deslocado ligeiramente pelo seu movimento regular: tinha embarcado no sono de Albertine.»


Em Busca do Tempo Perdido: A Prisioneira, Marcel Proust. Tradução de Maria Gabriela de Bragança.


La Captive (2000), Chatal Akerman

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Creio que há uma fase na vida de qualquer pessoa em que se sonha ter aquela profissão quase impossível de se alcançar com sucesso. Aquele período entre os 7 e os 14 anos em que julgamos que poderemos ser o próximo Ronaldo, o de Niro português ou a nova Sara Sampaio. Como o geek que fui nessa altura, a profissão que almejava era a de escritor de bds. Que queriam? Se havia secção que passava tempo na fnac, quando era miúdo, era a dos livros dos quadradinhos, onde fazia tempo nos sofás a folhear cada um dos cobiçados volumes com o entusiasmo de uma criança numa loja de brinquedos. Para além disso, é triste de admitir, mas durante anos a única barraca da Feira do Livro que me interessava era a da Devir.

Fiz com isso uma colecção enorme que ainda guardo, Lucky Luke, Astérix, Calvin & Hobbes, Quino, Alan Moore... mas principalmente super-heróis. De todos, o meu favorito era o aranhiço, o rapazito de classe média, inseguro, e que, na sua angústia existencial, tentava conciliar a salvação do mundo com o arranjar dinheiro para ajudar a tia no pagamento da renda ao fim do mês. Porque, acredito, era isso que o fazia especial, o demonstrar ter um verdadeiro bom coração quando não tinha o fato vermelho e azul vestido. E era isso que fazia do recém-falecido Stan Lee o maior dos escritores de banda-desenhada, a capacidade de provocar nos outros uma empatia extraordinária com uma figura da sua imaginação, partindo para isso de pessoas fragilizadas com os seus sacrifícios individuais quotidianos, os quais nunca adivinharíamos que pudessem fazer parte da vida de um super-herói. É isso que faz do Homem-Aranha o super-herói universal por excelência (é o mais vendido, caramba), não a capacidade invejável de trepar paredes, mas o facto de por baixo daquela máscara estar uma pessoa com que todos se identifiquem. E acredito que, no interior de cada número que Stan Lee tenha assinado o argumento, se possa encontrar esta lição, entre tantas outras: a de que para se ser um verdadeiro herói, basta apenas ser-se boa pessoa. Precisamos de quem nos relembre isso hoje em dia.

Fica-lhe o meu agradecimento junto a milhares de páginas por folhear.


domingo, 11 de novembro de 2018

Inoperável (ou, dos amores obsessivos de M. Swann):

«Pensava quase com espanto: "É ela", como se de repente nos mostrassem exteriorizada diante de nós uma das nossas doenças e não a achássemos semelhante ao que sofremos. "Ela", tentava Swann perguntar o que era; pois há uma semelhança entre o amor e a morte, mais do que essas tão vagas que sempre se repetem; fazer-nos interrogar mais a fundo, no medo de que a sua realidade se oculte, o mistério da personalidade. E aquela doença que era o amor de Swann de tal modo se multiplicara, esse amor estava tão estreitamente ligado a todos os hábitos de Swann, a todos os seus actos, ao seu pensamento, à sua saúde, ao seu sono, à sua vida, até àquilo que desejava depois da morte, era de tal modo um só com ele, que não seria possível arrancá-lo sem o destruir a ele quase por completo: como se diz em cirurgia, o seu amor já não era operável.»

Em Busca do Tempo Perdido: Do Lado de Swann, Marcel Proust. Tradução de Maria Gabriela de Bragança.





Swann in Love (1984), Volker Schlöndorff