quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Depois de Karina, antes de Miéville, houve Wiazemsky

«Nous étions maintenant assis sur un banc, dans un square, à l'ombre d'un vieux figuier. Il me tenait serrée contre lui et se taisait. Enfin, il murmura :
-O Jeanne pour aller jusqu'à toi, quel drôle de chemin il m'a fallu faire.
Et devant mon air surpris :
- C'est ce que dit le voleur à Jeanne dans le parloir de la prison. Tu ne connais pas Pickpocket de Robert Bresson?»

Anne Wiazemsky, Une année studieuse (Gallimard, 2012)

domingo, 1 de outubro de 2017

A poesia de Rilke em «As Asas do Desejo»

Só agora, ao ler a crítica do Rosenbaum (aprende-se tanto com o Rosenbaum) ao As Asas do Desejo (1987) é que descubro que o filme foi inspirado em versos de Rainer Maria Rilke (poeta que também não conhecia). E, aquando uma segunda visualização ao filme, creio que se está, possivelmente, diante de um dos melhores casos em que o cinema tentou filmar "a poesia".

«They all have tired mouths
And luminous, illimitable souls;
And a longing (as if for sin)
Trembles at times through their dreams.

They all resemble one another.
In God's garden they are silent
Like many, many intervals
In His mighty melody.

But when they spread their wings
They awaken the winds
That stir as though God
With His far-reaching master hands.»

THE ANGELS









«Praise the world to the Angel, not the untellable: you
can’t impress him with the splendour you’ve felt; in the cosmos
where he more feelingly feels you’re only a tyro. So show him
some simple thing, remoulded by age after age,
till it lives in your hands and eyes as a part of ourselves.
Tell him things.»

THE DUINO ELEGIES






«Who, if I cried, would hear me among the angelic Orders? And even if one of them suddenly
pressed me against his heart, I should fade in the strength of his
stronger existence.»

THE DUINO ELEGIES

















«But tell me, who are they, these acrobats, even a little
more fleeting than we ourselves,—so urgently, ever since childhood,
wrung by an (oh, for the sake of whom?)
never-contented will? That keeps on wringing them,
bending them, slinging them, swinging them,
throwing them and catching them back (...)»

THE DUINO ELEGIES


sábado, 23 de setembro de 2017

As Vinhas da Ira (x3)

«Nesse caso, todas essas coisas deixam de ter importância. Eu estarei em qualquer sítio, na escuridão. Estarei em toda a parte, em qualquer sítio para onde a senhora se puser a olhar. Onde quer que se lute para que a gente possa comer... eu estarei presente. Onde quer que a polícia esteja a bater num tipo, eu estarei presente. (...) Estarei onde quer que se vejam criaturas a gritar de raiva... e estarei onde as crianças sorriam porque têm fome mas saibam que a ceia não tarda. E quando a nossa gente comer aquilo que plantar e morar nas casas que construir... então também eu estarei presente.»

John Steinbeck, The Grapes of Wrath (1939). Tradução de Virgínia Mota.

«Now Tom said "Mom, wherever there's a cop beatin' a guy
Wherever a hungry newborn baby cries
Where there's a fight 'gainst the blood and hatred in the air
Look for me Mom I'll be there.»

Bruce Springsteen , The Ghost of Tom Joad (1997) do álbum homónimo.

The Grapes of Wrath (1940), John Ford

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Apesar de...

estar com uma degradação cromática que põe a imagem num vermelho infeliz, apesar das legendas em holandês, apesar de estar com uns debuxos que nos dão total garantia "sim rapaz, estais vendo do saudoso 35 mm", a cópia de The Immortal Story exibida na Cinemateca bem mostra que esta obra é uma das maravilhas esquecidas do good old Welles. É vê-lo sentado a olhar melancolicamente de frente para a câmara, como quem ouve o arrastar tenebroso e lento da inevitável gadanha. Ou Moreau, belíssima, a soprar as velas com uma jovialidade inocente, sem perder um pingo da sua carnalidade. Junte-se isso aos brancos pacíficos dos planos com ela a contrastarem com os negros carregados dos enquadramentos com ele e temos motivos para gritarmos para os da fila de trás "E isto foi feito originalmente para a TV, senhores!". O Rossellini deve ter ficado orgulhoso enquanto adormecia agarrado às suas enciclopédias.

The Immortal Story (1968), Orson Welles

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Quando o travelling faz o filme

Umas palavrinhas que dei sobre o recentemente estreado I am Michael:
http://www.c7nema.net/critica/item/47007-i-am-michael-o-meu-nome-e-michael-por-duarte-mata.html

Aula de cinema

«Alfred Hitchcock (AH): (...) O que não compreendo é que alguém se apodere realmente de uma obra ou de um bom romance cujo autor empregou 3 ou 4 anos em escrever e que constitui toda a sua vida. Manipula o assunto, rodeia-se de uns artesãos e técnicos de qualidade e temos candidaturas aos óscares, enquanto o autor se dilui em segundo plano. Não se pensa mais nele.

François Truffaut (F.T.): Isso explica porque não filmará "Crime e Castigo".

A.H.: E adicione o facto de que não ficaria bom.

F.T.: Porquê?

A.H.: Se pegar num romance de Dostoievski, não só "Crime e Castigo" mas qualquer um, tem muitas palavras e todas têm uma função.

F.T.: E uma obra-prima é, por definição, algo que já encontrou a sua forma perfeita e definitiva?

A.H.: Exatamente. E para expressar o mesmo de uma maneira cinematográfica, seria necessário substituir as palavras pela linguagem da câmara e rodar um filme de 6 ou 10 horas, caso contrário não funcionaria.

F.T: Para além disso, o seu estilo em particular e as necessidades do suspense obrigam-no constantemente a jogar com a duração do tempo, a comprimi-la às vezes, mas com maior frequência a dilatá-la, e por ele o trabalho da adaptação de um livro é muito mais diferente para si que para a maioria dos cineastas.

A.H.: Sim, mas comprimir ou dilatar o tempo, é a principal função de um realizador? Não crê que o tempo do cinema deva ser independente do tempo real?

F.T.: Sim, é um elemento essencial, mas isto só se pode descobrir ao fazer o primeiro filme, por exemplo, as acções rápidas devem descomprimir-se e dilatar-se, caso contrário seriam imperceptíveis para o espectador. Faz falta ofício e autoridade para controlar isto.»

Hitchcock / Truffaut