sábado, 29 de março de 2025

A AD com a Spinumviva, o PS com a indemnização milionária, o Bloco com as lactantes, a IL com as assinaturas falsas, a CDU com a Ucrânia, o PAN com as estufas, o Livre com as regras das primárias, e o Chega com a sua parada de sórdida delinquência. 

O que vai ser sufragado, nestas legislativas, não será o programa eleitoral (em teoria, o que deveria acontecer) nem a personalidade do candidato (na prática, o que se verificava). Vai ser, simplesmente, o partido que se saiu menos mal diante da controvérsia com que se deparou. É o estado a que chegámos.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Tornou-se uma hercúlea prova de resistência sair da loja Normal aqui da zona de mãos vazias. Olha-se em volta e o que se vê entre os cremes, os champôs e outros produtos do quotidiano? Oreos de tiramisu, M&Ms de caramelo salgado, Milkas de Oreo de chocolate, Kit Kats em bolas, Mars em bolachas, Snickers em bebida, Twix em creme de barrar... É como se alguém pegasse no conceito de compras por impulso (aquelas compras de doces estrategicamente colocados nas caixas de hipermercado) e decidisse aplicá-lo a cada metro e meio de uma loja inteira, com produtos inesperados de apelo à gula em esteróides. Uma mistura entre uma loja de conveniência labiríntica e a fábrica do Willy Wonka.

Então é isto que os meus amigos de esquerda chamam de "late stage capitalism"...

domingo, 23 de março de 2025

Venho ao facebook e leio: "Adorei o 'Adolescence'". Falo com a companheira e ouço: "Gostava de ver o 'Adolescence'". Ligo a rádio e anunciam: "Vamos falar sobre o 'Adolescence'". Telefono à família e dizem: "Íamos agora pôr o 'Adolescence'".

"Adolescence, Adolescence, Adolescence". De súbito, sinto-me como o John Malkovich no "Queres Ser John Malkovich?", naquela cena em que entra num restaurante onde todos (os empregados, os clientes, os cantores) comunicam dizendo exclusivamente "Malkovich". No meu caso, a palavra é outra. Já a vontade de, como nesse filme, sair a gritar porta fora é perfeitamente a mesma.

sábado, 22 de março de 2025

Que me perdoem os amigos do Público, mas há situações cuja premência justifica a divulgação pública de crónicas alcandoradas na mais meridiana lucidez. A incerteza destes tempos é uma delas.




domingo, 16 de março de 2025

Está bem, mas então Portugal deve, em primeiro lugar, deportar portugueses que se recusam a falar português. É que eu já não posso com jovens das gerações Y e Z que, fruto da quantidade de séries americanas e livros importados ingeridos, são incapazes de articular uma única frase sem recorrer a estrangeirismos fáceis, traduções literais de palavras ou expressões anglófonas inteiras, adulterando, das maneiras mais inusitadas, o idioma castiço lusitano de que também são naturais embaixadores. E não me façam falar do que se passa nas reuniões empresariais, encontro entre "project managers", "digital marketers" e "developers" para encerrar as "stories" dentro do "deadline" que antecede a próxima "call".

Para alguns, Portugal parece África. Para outros, a Índia. A mim, que abertamente assumo os meus preconceitos, uma América de sotaque ibérico.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Gostei muito deste romance sobre um presidente norte-americano, republicano, isolacionista, de tendências autocráticas, simpatias fascistas e retórica discriminatória contra minorias que é eleito numa altura de guerra na Europa, fazendo os EUA virar costas aos apelos dos aliados ocidentais para ajudar a combater um ditador, optando, ao invés, por tratar o dito tirano como um parceiro diplomático fiável independentemente das atrocidades e crimes que este cometa. A dada altura (e vejam só a criatividade do Roth), até se fala em purgas na imprensa e em conflitos com o Canadá, entre outras acções instáveis que alimentam polarizações sociais, desconfiança nas instituições e o medo generalizado.

Felizmente, é só um romance. Ufa.