Pergunta que surge num livro que tenho por estes dias em mãos, o Humilhados e Ofendidos do grande psicólogo da alma humana, Dostoievski de seu nome. No caso, uma personagem que a solta de forma retórica a propósito do papel da crítica literária ao protagonista, um jovem escritor que acaba de terminar o seu primeiro romance. Já me havia deparado com ela, não poucas vezes, sobre a crítica cinematográfica, à qual tentei dar a minha tentativa de resposta em tempos idos. O que prova que, seja sobre a literatura no século XIX ou o cinema no século XXI, a pergunta permanece e estará para durar por gerações, artes e séculos. Já fui presenteado com várias elucidações. Mas talvez nenhuma melhor do que a solta pela pena do saudoso William Friedkin na sua autobiografia, The Friedkin Connection. Parafraseio-o e não o cito ipsis verbis por uma questão de concisão.
«Em 1957, o dramaturgo Harold Pinter estreou a sua peça The Birthday Party. A audiência e alguns críticos consideraram-na obscura, absurda e sem valor. O Pinter tinha apenas 28 anos, esta era a sua segunda peça e tinha sido um fiasco, estando sem dinheiro e a viver numa cave com um bebé. A peça fechou ao fim de oito dias, e só seis pessoas foram vê-la na sua última exibição. Isto deveria marcar o fim da carreira do Pinter. Mas eis que o milagre aconteceu. Uma dessas pessoas era o crítico de teatro Harold Hobson, que escreveu, depois da peça ter encerrado: “Estou disposto a arriscar a minha reputação enquanto crítico ao dizer que o sr. Pinter possui o talento mais original, perturbador e impressionante na Londres teatral. Ele tem presente um facto primário da existência: vivemos à beira do desastre.” E o resultado é que esta crítica resgatou a peça de Pinter e a sua reputação.»
Uma crítica foi o primeiro acontecimento crucial para a aclamação, prestígio e posterioridade de um homem simples que gostava de escrever peças. E, por isso, respondendo à questão do título, aquilo que parece ser uma actividade pedante, esquecível e sem utilidade pode fazer, na vida de alguns, toda a diferença entre a miséria numa cave e um Nobel anos depois.
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