Passada sexta-feira (dia 11), Amoreiras Shopping, Joker de Todd Philips. Única sessão exclusivamente comercial (subentenda-se, fora do contexto de festival e/ou sem a presença de quaisquer personalidades ligadas ao filme que pudessem despertar obrigações morais catalisadoras do gesto) em que estive presente que terminou com a audiência a aplaudir. Mas a aplaudir de forma entusiasmada, como poucas vezes vi. E foi maravilhoso estudar os gestos que antecederam o final por parte dos seus membros, os "isto é tão sinistro" ouvidos, as mãos levadas à boca ou à testa, em suma, as genuínas reacções de incómodo e espanto que o filme provoca. Há coisas que os visionamentos de imprensa não conseguem ter. Incluindo a capacidade de recordar que o cinema em sala é uma grande experiência colectiva.
domingo, 13 de outubro de 2019
segunda-feira, 23 de setembro de 2019
The Queen Is Dead
"Je veux me reposer, moi. Je veux dormir. Dans mon lit."
L'Insoumis (1964), Alain Cavalier
L'Insoumis (1964), Alain Cavalier
sábado, 21 de setembro de 2019
"Qu'est-ce que le cinéma?"
Leio o novo livro do amigo e companheiro de armas walshiano Luís Mendonça, História da Fotografia - Ao Encontro das Imagens, e sorrio com a referência a um momento que me diz muito, vindo de um filme que guardo com especial calor na memória e no coração.
Já escrevi algures sobre como a semente da flor da minha cinefilia foi plantada aos 10 anos com o "filme da minha vida", The Kid do Chaplin. Mas só muito mais tarde compreendi o que levou esta semente a germinar, a criar raízes fortes e um caule extenso, findado por um número de pétalas maior do que alguma vez imaginaria, ao invés de, como tantas outras actividades que descobrimos e por que nos apaixonamos, mas só transitoriamente, ter sido deixada em terreno infértil e sem granjeio. Essa resposta creio que só a tive exactamente uma década depois com o que considero o "segundo filme da minha vida", Yi Yi do Edward Yang, um épico íntimo feito de experiências comuns do dia-a-dia, que segue uma família de Taiwan ao longo de um ano.
Na cena referida pelo Luís, o pai e o filho (um rapaz pequeno, dotado daquela curiosidade juvenil, capitosa, mas ternurenta, que cria um peso filosófico nas coisas mais inusitadas e que tomamos como esclarecidas) estão num carro a falar, com o pai a tentar acalentar as perguntas da criança que o incentivam à reflexão. O filho faz duas questões cruciais. À primeira, "Pai, como posso ver o que tu vês, e como podes ver o que vejo?", o pai responde, "Boa pergunta. Se calhar é por isso que precisamos de uma câmara." À segunda, "Pai, o que é a verdade?", o progenitor replica, "Bom, a verdade é aquilo que tu vês." Mas esta segunda resposta não se fica por aqui, e o pequeno replica, "Se assim é, eu só vejo metade da verdade?", dado que uma pessoa só está apta a ver o que está à sua frente, e não o que está atrás de si. O pai não tem resposta. A consequência deste curto, mas nada superficial debate familiar, leva a que o miúdo arranje, de facto, uma máquina fotográfica. Com que finalidade? A de fotografar as nucas das pessoas e dar aos retratados os insólitos resultados, dizendo-lhes "É para que possas saber toda a verdade sobre ti próprio."
Dias depois de ter visto este filme, perguntaram-me o que era para mim o cinema. Respirei fundo, puxei pela memória, e contei estes momentos de forma mais ou menos fiel à do parágrafo anterior, dizendo que, na minha perspectiva, o cinema passa justamente pelas duas questões do rapaz e a subsequente acção deste. À primeira pergunta, disse que a associação era evidente, o cinema leva à pluralidade de pontos-de-vista sobre um dado tema, assunto, facto, enfim, a compartilha de uma visão do mundo a que as pessoas voluntariamente abrem a sua mente e confrontam com a sua. Mas é a segunda questão, onde está menos evidente a ligação, mas mais presente na forma como se relaciona com as fotografias realizadas pelo filho, que mostra como o melhor cinema, tal como a melhor literatura, também existe enquanto ferramenta para a descoberta da verdade, para o aprofundamento do conhecimento de um indivíduo sobre o que o rodeia, mas essencialmente sobre si próprio. Que é um meio de soltar menos a questão "O que é isto?" do que "Quem sou eu?", e estar apto, pela identificação, a providenciar mais respostas do que ao princípio se esperaria. Ou, de maneira mais sucinta, que ao filmar os rostos das outras pessoas, tem na verdade a câmara apontada às nossas nucas.
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Textos Setembro 2019 e uma história
Dado o meu jejum de facebook por estes dias, quero só deixar aqui gravado este par de textos. Mas o que mais me interessa é contar uma das minhas histórias de eleição.
Entrei na fase crepuscular da blogosfera, onde já ocorria o fluxo migratório para as redes sociais. No entanto, fui a tempo de apanhar o saudoso As Aranhas do Luís Miguel Oliveira (que está desactivado, pelo menos para acesso público). Quando o descobri, e dada o particular talento do Luís para o storytelling, para mais sob uma perspectiva cinéfila, tornou-se a mais importante referência cinematográfica online que tinha, a qual devorei desde a primeira à última publicação de forma compulsiva, como quem come uma caixa de chocolates que encontra perdida no fundo da estante.
Uma das que mais me recordo é a da ocasião em que o Luís entrevistou o Sydney Pollack. Eram os anos 90, o Pollack estava a dar entrevistas de 10 minutos em massa num hotel, onde cada crítico se encontrava num quarto individualizado, que o Pollack percorria e visitava pacientemente. O Luís não queria colocar as questões habituais e foi bastante criterioso a defini-las. Quando chegou a sua vez, o Pollack entrou, sentou-se, ouviu-o atentamente e absorveu com cuidado cada pergunta, reflectindo e respondendo com o mesmo cuidado com que tinham sido feitas. Bateu o relógio, e o Pollack teve que partir. Estava prestes a sair do quarto quando, de súbito, parou, virou-se para o Luís e disse, muito honestamente:
"-Challenging questions."
Se a memória não me falha, o Luís contou esta história no dia em que o Pollack faleceu, e dado que para ele (e também, já agora, para mim), o realizador não fazia mais do que um "cinema do papá" nem por isso bom, concluiu com o seguinte remate: "Sydney Pollack era melhor pessoa do que melhor cineasta. Não há muitos realizadores de quem se possa dizer o mesmo."
Dito isto, Amazing Grace, co-realizado pelo Pollack, está nas salas ao fim de quase meio-século fechado em cofres, e tanto o Luís como eu gostamos.
Comprimidos Cinéfilos (o meu contributo é o do Blinded by the Light):
http://www.apaladewalsh.com/2019/09/comprimidos-cinefilos-julho-e-agosto-2/
Amazing Grace:
http://www.apaladewalsh.com/2019/09/amazing-grace-maquina-do-tempo/
Havia um vídeo, filmado modestamente com um telemóvel, ou então com uma câmara de filmar já mais do que obsoleta, com esta canção num concerto qualquer. Antes de a cantar, o Springsteen (para mim, o maior cineasta que não chegou a sê-lo) começava, como típico nele, com um pequeno monólogo alicerçado num pedacinho de sabedoria existencial. Dizia ele:
"This is a song about self-knowledge... which is kind of a funny thing... because the less of it you have, the more you think you have, you see? That's its twisted blessing. When I was 22 or 23 I had a shitload of self-knowledge. I lost along the way, somewhere. All right... this is about losing it and finding it too late."
Os meses passaram e descobri que o vídeo foi removido. Por sorte, tinha transcrito o dito monólogo, palavra por palavra, para um rascunho daqui. A efemeridade das coisas entra em acção, fico eu para contar a história. Algo que se vai tornando cada vez mais frequente deste lado por estes dias.
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
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