quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Textos Setembro 2019 e uma história

Dado o meu jejum de facebook por estes dias, quero só deixar aqui gravado este par de textos. Mas o que mais me interessa é contar uma das minhas histórias de eleição.

Entrei na fase crepuscular da blogosfera, onde já ocorria o fluxo migratório para as redes sociais. No entanto, fui a tempo de apanhar o saudoso As Aranhas do Luís Miguel Oliveira (que está desactivado, pelo menos para acesso público). Quando o descobri, e dada o particular talento do Luís para o storytelling, para mais sob uma perspectiva cinéfila, tornou-se a mais importante referência cinematográfica online que tinha, a qual devorei desde a primeira à última publicação de forma compulsiva, como quem come uma caixa de chocolates que encontra perdida no fundo da estante.

Uma das que mais me recordo é a da ocasião em que o Luís entrevistou o Sydney Pollack. Eram os anos 90, o Pollack estava a dar entrevistas de 10 minutos em massa num hotel, onde cada crítico se encontrava num quarto individualizado, que o Pollack percorria e visitava pacientemente. O Luís não queria colocar as questões habituais e foi bastante criterioso a defini-las. Quando chegou a sua vez, o Pollack entrou, sentou-se, ouviu-o atentamente e absorveu com cuidado cada pergunta, reflectindo e respondendo com o mesmo cuidado com que tinham sido feitas. Bateu o relógio, e o Pollack teve que partir. Estava prestes a sair do quarto quando, de súbito, parou, virou-se para o Luís e disse, muito honestamente:

"-Challenging questions."

Se a memória não me falha, o Luís contou esta história no dia em que o Pollack faleceu, e dado que para ele (e também, já agora, para mim), o realizador não fazia mais do que um "cinema do papá" nem por isso bom, concluiu com o seguinte remate: "Sydney Pollack era melhor pessoa do que melhor cineasta. E não há muitos realizadores de quem se possa dizer o mesmo."

Dito isto, Amazing Grace, co-realizado pelo Pollack, está nas salas ao fim de quase meio-século fechado em cofres, e tanto o Luís como eu gostamos.

Comprimidos Cinéfilos (o meu contributo é o do Blinded by the Light):
http://www.apaladewalsh.com/2019/09/comprimidos-cinefilos-julho-e-agosto-2/

Amazing Grace:
http://www.apaladewalsh.com/2019/09/amazing-grace-maquina-do-tempo/

Self-knowledge...

Havia um vídeo, filmado modestamente com um telemóvel, ou então com uma câmara de filmar já mais do que obsoleta, com esta canção num concerto qualquer. Antes de a cantar, o Springsteen (para mim, o maior cineasta que não chegou a sê-lo) começava, como típico nele, com um pequeno monólogo alicerçado num pedacinho de sabedoria existencial. Dizia ele:

"This is a song about self-knowledge... which is kind of a funny thing... because the less of it you have, the more you think you have, you see? That's its twisted blessing. When I was 22 or 23 I had a shitload of self-knowledge. I lost along the way, somewhere. All right... this is about losing it and finding it too late."

Os meses passaram e descobri que o vídeo foi removido. Por sorte, tinha transcrito o dito monólogo, palavra por palavra, para um rascunho daqui. A efemeridade das coisas entra em acção, fico eu para contar a história. Algo que se vai tornando cada vez mais frequente deste lado por estes dias.

sábado, 10 de agosto de 2019

"Don't tell anyone - I'm a poet", disse o Powell num documentário

Devo estar só com esta opinião, mas para mim os melhores filmes do Powell são os que são filmados no campo. Talvez por ter passado a infância no meio rural de Kent, é deslumbrante a sensibilidade singular que adquiriu em filmar as nuvens no céu, a queda da chuva, o vento nas árvores e campos de trigo, de fazer, em suma, sentir a força dos elementos (que, de uma maneira ou outra, se entrelaçam com a turbulência emocional das histórias humanas que o realizador retrata, cimentando-a, comentando-a, reflectindo-a) em enquadramentos de composições pictóricas que alicerçam uma atmosfera mística e romântica em todo o seu jogo de escalas, diagonais e silhuetas. Por isso, para mim, ele estava a ser totalmente modesto quando se auto-intitulou de poeta.
Gone to Earth (1950), Michael Powell & Emeric Pressburger


sexta-feira, 19 de julho de 2019

O meu momento "Nova Gente" cinéfila deste dia

Vi o "Man's Castle" do Borzage, cheguei ao final e pensei, "nah, a Loretta Young e o Spencer Tracy claramente que tinham alguma coisa na vida real por esta altura." Fui pesquisar e descobri que tinha razão. Há olhares que não enganam ninguém. Mesmo que venham de dois dos actores mais convincentes que já existiram.


terça-feira, 16 de julho de 2019

Isto já estava lá tudo

Não é novidade nenhuma dizer isto, mas tudo ou quase tudo aquilo que caracteriza o cinema de Michael Mann está logo presente no seu primeiro filme. Que, mais néon menos néon, mais bandido menos bandido, se pode resumir em três pontos-chave: a noite na cidade, as mãos (seja ao trabalho ou a agarrarem-se), e uma linha distante onde mar e céu se tocam, que talvez esconda o único sítio onde os protagonistas de Mann possam encontrar um pouco de paz para o cansaço existencial que levam.


Thief (1981), Michael Mann

quarta-feira, 5 de junho de 2019

A kiss isn't just a kiss

Já não o desde via há um tempo e decidi aproveitar para descobrir a "versão preview" do My Darling Clementine do Ford.

Para os que não sabem, o filme acabava originalmente com um aperto de mãos entre o xerife Wyatt Earp e Clementine, antes deste se fazer à estrada, após falarem na hipótese do seu regresso. Quando o filme passou por uma exibição teste, as audiências riram-se com o dito gesto de despedida, pedindo nos cartões comumente atribuídos nestas ocasiões que ocorresse, ao invés, um beijo entre eles. Zanuck, que estava à frente da Fox na altura, viu a reacção provocada, leu a dita sugestão e, para desgosto de Ford, ordenou a filmagem de um grande plano com o cobiçado ósculo, criando a versão mais divulgada e conhecida do filme. 

Agora, este simples enquadramento faz uma diferença imensa entre um caso e outro. Antes dele havia a sensação de ciclo, da necessidade do protagonista em partir para outra cidade que precisa mais dele do que Clementine, e que a sua existência se resumiria inevitavelmente à elaboração do dever de forma emocionalmente descomprometida. Com a sua adição, fica vincado o desejo apaixonado de retorno, tornando a união entre Earp e Clementine num futuro indefinido mais palpável. Porque, ao contrário do que diz a canção, aqui um beijo não é apenas um beijo, anuncia uma abrupta mudança interna da personagem (pode-se traçar um paralelismo entre este momento e aquele em que John Wayne pega Natalie Wood nos braços, perto do final de The Searchers), o término da postura tímida e afectuosamente repressiva que Earp tinha mostrado diante de Clementine até ali. Após a erradicação do mal em Tombstone, Earp está finalmente apto em exprimir-se sentimentalmente para com ela, fazendo daquele gesto terno o mais lógico para marcar o fim da sua jornada de violência e a possibilidade do alcance de um pouco de paz num lugar remoto das paisagens americanas. 

E tudo isto para dizer que a conclusão que tirei ao comparar as duas versões foi esta: que um plano pode alterar toda a interpretação que se tira de uma cena, que um gesto pode mudar a maneira de ver o que se poderá seguir sobre duas personagens, que a diferença entre um filme muito bom e uma obra-prima talvez possa estar em algo tão simples como um beijo.






terça-feira, 28 de maio de 2019

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Entrevista no podcast "À Beira do Abismo"

O Rui Alves de Sousa há-de ser a pessoa com mais iniciativa e energia que conheço. Crítico de cinema na Take Cinema Magazine, dos poucos que ainda acredita na relevância da blogosfera (para além do blog Companhia das amêndoas, ele é também fundador do colectivo Má Educação), co-criador ou criador dos podcasts Escolhe Tu e do já terminado Um Lance no Escuro... Mas o Rui é, acima de tudo, um amigo a quem dá sempre gosto trocar dois dedos de conversa. Ora, foi sob a perspectiva de uma conversa amigável que teve ele a simpatia de me convidar para aquele que é o seu podcast pessoal, À Beira do Abismo, o qual já venho seguindo desde há uns tempos, onde ele entrevista pessoas de diversas áreas (cinema, música, literatura, teatro...) que têm todas em comum o facto de serem bastante simpáticas e o terem coisas interessantes para dizerem. Como achei que faltava uma excepção à regra, aceitei, e os nossos temas de conversa resumiram-se às duas palavras mais bonitas do mundo (quer dizer, para mim são as duas palavras mais bonitas do mundo): cinema e Springsteen.

Deixo um sincero obrigado ao Rui pela experiência (até aqui era sempre eu quem segurava o microfone em entrevistas, e ainda bem) e votos para que continue a presentear-nos com o belo trabalho que tem feito em todos os diversos sites, blogs, podcasts, etc etc etc.

* iTunes: apple.co/2t43vKR
* Spotify: spoti.fi/2Ss8H9O
* Mixcloud: bit.ly/2qd9H21 
* YouTube: bit.ly/2SKmxnM 
* Castbox: bit.ly/2t44bQp

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Filmar a ausência

Não tinha ainda visto o Ida e gostei particularmente deste momento, com a secura da câmara e inexpressão da montagem diante a saída de cena (e do mundo) de uma personagem. Nenhum drama, nenhuma hesitação, e ao mesmo tempo a tremenda indiferença com que o sujeito filmado dá o derradeiro salto, feito com a maior naturalidade, deixando o espectador de olhos fixos no céu. Nenhum plano subjectivo durante a queda, nenhum corte para o chão no seu fim, nada. É a sensação fixa de vazio do quarto que permanece. Filmar a ausência é qualquer coisa como isto.

La meglio gioventù (2003), Marco Tullio Giordana
Ida (2013), Pawel Pawlikowski